quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Caso Cachoeira

Após um bom período sem acesso ao blog, problema com a empresa telefônica OI, que se devia chamar UI, uma vez que, ao invés de bons serviços, nos oferece somente aporrinhações, volto a fazer postagens e a que segue diz respeito ao assunto do momento: Carlos Cachoeira, Demonstenes Torres, revista veja (arrrgggg!)...
O que segue nos dá uma boa noção do que foi, do que é e do que poderá ser, com relação à corrupção neste país e, o que é mais grave, com relação a forma como se faz política neste Brasil varonil. De como essas práticas já levaram presidente a suicídio, até.
Ah! sim, retirei o texto do blog de Luis Nassif.
Por alfeu

Do Brasil de Fato
Apenas um ponto da teia criminosa

Os que tramaram pela derrubada do governo, ficarão impunes?
A casa do senador Demóstenes Torres (ex-Dem/GO) ruiu. Descobriu- se que o senador, até poucos dias atrás tido como o mais tenaz e corajoso combatente da corrupção pública dos governos petistas, está entranhado com atividades ilegais comandadas pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
Demóstenes e Cachoeira são apenas um ponto da teia criminosa construída e que agora começa a ser desvendada. Como escreveu a jornalista Maria Inês Nassif, este caso não é apenas mais um caso de corrupção. “É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos venal. E hipócrita também”.
p>É inadmissível que não seja dado à revista Veja, da família Civita, a oportunidade de sentar no banco dos réus para provar que é falsa acusação de que formou uma associação criminosa com o bicheiro. Há fortes evidencias que o diretor da sucursal da Veja de Brasília, Policarpo Junior, trabalhava de forma afinada com o bicheiro para gravar vídeos e produzir matérias jornalísticas de interesse mútuo. Matérias que, mesmo quando mentirosas, eram adotadas e amplificadas no jornal Nacional da Rede Globo e reproduzidas pelos outros jornais impressos. Com essa prática jornalística, irresponsável e mentirosa, destruíram reputações, criaram heróis, chantagearam governos e atentaram contra a democracia do país.
A partir da Operação Monte Carlo, surgiram evidências e depoimentos de que a trinca Demóstenes – bicheiro – Veja trabalhou para derrubar um governo democraticamente eleito, o do Lula, manipulando o conhecido caso do mensalão. Que sejam julgados os responsáveis pela criação do mensalão. E os que tramaram pela derrubada do governo, ficarão impunes?
O próprio ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes foi envolvido na trama criminosa do bicheiro, do senador Demóstenes e da mídia. Fizeram o ministro acreditar que uma conversa telefônica sua com o senador foi gravada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O Ministro, zeloso pelo Estado de Direito, nem esperou pelas provas do grampo para acusar o governo. Com a bravura típica de latifundiários do Mato Grosso, como alertou uma vez o ministro Joaquim Barbosa, também membro do STF, Gilmar Mendes prometeu chamar o presidente Lula “às falas” e exigiu a exoneração do diretor geral da Abin, Paulo Lacerda. Tudo, sem nenhuma prova. Certamente, sendo um juiz inteligente e qualificado, foi enganado pelo amigo Demóstenes e pelo amigo do amigo, o bicheiro de Goiás. Agora, que a Policia Federal comprovou que nunca houve grampo da conversa entre os dois, não há culpados nessa grotesca farsa criada com a participação do presidente da mais alta Corte do Poder Judiciário?
É importante, também, para preservar a imagem desse ex-presidente do STF, que seja identificado quem é o portador do 18º telefone celular que formava o clube nextel montado pelo bicheiro. Os telefone foram habilitados nos Estados Unidos para que a cúpula do grupo empresarial do bicheiro não tivessem suas conversas gravadas pela PF. Estão identificados 16 portadores dos telefones. Faltam dois. Um estava com o senador Demóstenes, cujo nome, por causa da imunidade parlamentar, não aparece no processo.
Com quem estará o nextel que ainda falta? Seria injusto pensar que o fato do senador Demóstenes ter empregado em seu gabinete uma enteada do Gilmar Mendes fosse motivo sufi ciente para também presenteá-lo com um “nextel do Cachoeira”. Para alívio do ministro Mendes, o nextel pode ter sido dado ao juiz que foi passear com o Demóstenes e com o bicheiro, na Alemanha, e que o deputado Miro Teixeira (PDT/RJ) quer saber seu nome. Em todo caso, seria bom que o Gilmar Mendes exigisse que a PF apurasse e que fosse divulgado o portador do nextel que permanece anônimo.
Sobre a possível vinculação do governador tucano Marconi Perillo (PSDB/GO), há pouco a comentar uma vez que o presidente nacional do seu partido, deputado Sergio Guerra (PSDB/PE) e o senador tucano Álvaro Dias (PSDB/PR), tão moralista e apadrinhado da Vejaquanto o Demóstenes, confirmam em sua completa inocência. O próprio governador tucano disse que uma vez encontrou o bicheiro e que ele lhe revelou que tinha abandonado o jogo e saído da contravenção. O governador concluiu: “acreditei!” Com essa candura (leitor/a, não é cara-dura...), como imaginar que esse político está vinculado com o crime organizado? Nos somamos ao abalizado parecer do senador Álvaro Dias: ele é inocente!
Mas, para assegurar que esse caso do bicheiro com um dos senadores de Goiás cometa injustiça, é necessário que o Mistério Público investigue com profundidade toda essa trama do crime organizado. A presidenta Dilma, que tem demonstrado força e capacidade para gerenciar a economia, precisa liderar as mudanças políticas inadiáveis para fortalecer a democracia e tornar o povo mais participante nas decisões do país. O Congresso Nacional deve superar os interesses corporativos e dos parlamentares que temem serem sugados pela vala que se abriu com a prisão do bicheiro. É preciso aprovar e instalar imediatamente a CPI do Carlinhos Cachoeira. Sem esquecer de instalar a CPI da privataria tucana e de criar a Lei da Mídia já!
Perdida essa oportunidade histórica de punir os poderosos por seus crimes, se espalhará o sentimento de que o poder repressivo da Justiça é reservado apenas aos pobres. Mas chegará o momento em que o povo saberá cobrar e responsabilizar os políticos que foram coniventes e asseguraram a impunidades desses crimes.

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quinta-feira, 15 de março de 2012

A COPA DO MUNDO NO BRASIL, R. Teixeira...

Vou simplesmente transcrever termos da entrevista feita por uma jornalista brasileira, publicada na revista Carta Capital, ao jornalista inglês que sabe tudo sobre Ricardo Teixeira, Andrew Jennings:


Por Natalia Viana, da agência A Pública*

Ao atender o telefone, do Reino Unido, Andrew Jennings responde entusiasmadamente: “Nós pegamos ele, não pegamos?”.

Jennings, parceiro da Pública, foi o autor da reportagem da BBC que denunciou as propinas de 9,5 milhões de dólares dadas a Ricardo Teixeira e 1 milhão de dólares ao ex-presidente da FIFA, e seu ex-sogro, João Havelange, para garantir à empresa de marketing esportivo ISL contratos de exclusividade em patrocínios da Copa do Mundo. O caso foi investigado pela Justiça suíça e se tornou um escândalo mundial.
Em entrevista, o jornalista responsável por denúncias de propinas milionárias pagas a Ricardo Teixeira comemora a renúncia do cartola

Autor do livro “Jogo Sujo – o Mundo Secreto da Fifa“, ele chegou a prestar depoimento no Senadobrasileiro explicando a história em outubro do ano passado – e apresentou documentos sobre a investigação da corte suíça.
Jennings, que se dedica há mais de 20 anos a denunciar corrupção na FIFA, à qual chama de “máfia”, profetiza: “Hoje é Teixeira, amanhã será Blatter”.

O que você acha do Ricardo Teixeira?
O Ricardo Teixeira não tem interesse em futebol, nunca ouvi falar que ele se interessasse pelo jogo. Bom, ele foi sortudo: conseguiu casar com a filha do chefe: foi colocado como presidente da CBF, um empregão. E ele construiu uma longa história de corrupção na CBF. Como ele conseguiu ficar sem punição cometendo crimes por tanto tempo? Porque ele era protegido por pessoas. Cabe aos jornalistas brasileiros denunciar quem eram os políticos que protegiam o Teixeira no Congresso, quem barrava as investigações contra ele.

Você o conheceu?
Sim, claro. Eu o conheci 16 meses atrás, quando fiz plantão diante da sua porta quando ele estava na Suíça. Quando ele apareceu, perguntei: “Senhor Teixeira, o senhor recebeu propinas da ISL?” Ele me empurrou e não respondeu nada.
No ano passado o Teixeira ameaçou te processar, certo?
Sim. Em junho ele enviou dois advogados na FIFA até a BBC para me entregar uma intimação, mas a BBC se recusou a receber. Eles tentaram, não sabiam que eu não morava em Londres e que a BBC iria se recusar a receber documentos do tribunal no Rio. Quando eu fui ao Brasil em outubro, eles tentaram de novo me entregar essa intimação no Senado, mas eu me escondi atrás de uns guarda-costas do Senado, eu apreciei a ajuda deles.
O Teixeira queria me processar por uma entrevista que eu dei para o Romário e saiu no site dele. O Teixeira ficou muito nervoso porque Romário é uma grande estrela no Brasil, ele não podia mais falar que sou apenas um inglês louco.
Aliás, o Romário disse a coisa certa: é como se um câncer tivesse sido tirado da CBF. O Romário tem sido excelente há meses, tem atacado o Teixeira, enquanto o Ronaldo está beijando a sua bunda e ficando mais gordo.

A saída do Ricardo Teixeira vai mesmo fazer alguma diferença, ou vai ficar na mesma?
Temos que esperar para ver. O Brasil não precisa da gangue do Teixeira. Vocês têm pessoas eficientes para fazer a Copa do Mundo, tecnocratas bons, pessoas que podem organizar tudo muito bem. Não precisam desses oficiais da CBF roubando dinheiro. Mas ainda não sabemos se vai melhorar a CBF sem o Teixeira. Acho que isso só vai ser uma mudança real se a Dilma e o Aldo Rebelo disserem: não é só o Teixeira, fora com todos os outros ladrões.

A Dilma tem esse poder?
Claro. Na sexta-feira, quando o Blatter voar para Brasília para encontrá-la, os oficiais da imigração brasileira deveriam mandá-lo de volta.

Já houve um enorme atrito após o Jerome Valcke dizer que o Brasil deveria levar um chute no traseiro…
Sim. E a Dilma estava certa em pedir para ele ser retirado das negociações. Ele não pode pedir desculpas agora que já falou. E não há razões para o Brasil aceitar essas desculpas, acreditar que ele não quis ofender. Ele é um bastardo arrogante e pensou que poderia ofender o Brasil. Então o Brasil deveria dizer: “não venham aqui, nós vamos rasgar o seu visto”. Vocês podem organizar uma bela Copa do Mundo, não precisam desses crápulas.
E quanto à sucessão na CBF, o governo deveria intervir mais?
A Dilma ou o Aldo Rebelo deveriam estabelecer uma comissão para reavaliar todos os contratos da Copa – com patrocinadores, empreiteiras, venda de ingressos. Tudo isso deveria ser revisto porque Teixeira é um ladrão, e eu estou dizendo isso como o jornalista que o expôs como o ladrão que ele é, e neste caso, como chefe do comitê da Copa, todos os contratos assinados por ele estão sob suspeita. Lembre-se de que houve uma denúncia no ano passado de que o Teixeira iria obter lucro, pessoalmente, com alguns contratos. Eu gostaria de ver o Aldo Rebelo chamar uma conferência de imprensa e diante das câmeras dizer: “vejam esses contratos. Agora eu vou rasgar os contratos”. E então ele deveria rasgá-los. Vocês têm que mostrar ao mundo que pessoas como ele não vão mais fazer parte da sua Copa do Mundo.
Alguns comentaristas afirmaram, depois da declaração de Valcke, que a FIFA poderia voltar atrás e tirar a Copa do Brasil, mudando a sede para a Inglaterra. Você concorda?
Não. A Copa do Mundo não será retirada do Brasil de jeito nenhum. Quem vai tirar a Copa do Brasil? Quem vai fazer uma Copa do Mundo sem o time brasileiro? E além disso, tudo isso é um grande negócio, os contratos já foram assinados, tem estádios sendo construídos, não dá pra voltar atrás agora. Olha, eles ferraram com a África do Sul porque os políticos de lá não se levantaram contra isso. Blatter e Jerôme se acham tão importantes que acham que qualquer político vai beijar a bunda deles. São tão arrogantes! Mas essa é a lição que eles podem aprender, e eu te digo: o resto do mundo vai aplaudir se o Brasil disser, na imigração, que o comitê executivo da FIFA não pode entrar, que o Brasil não vai aceitar isso, pois é um país soberano e orgulhoso, parte dos BRIC!
Quem derrubou o Teixeira agora, 23 anos depois?
A minha sensação é que foi a sua presidenta. Quando estive no Senado em outubro do ano passado, o gabinete da Presidência ligou depois do meu depoimento pedindo uma cópia do que eu falei.
Não foi pressão de dentro da FIFA?
Com a FIFA é mais sofisticado. Eles tentam suprimir documentos do processo judicial na Suíça que apontam o Teixeira e o Havelange, então eles ainda estão dormindo na mesma cama. Agora, será muito interessante ver se o Teixeira vai renunciar ao seu cargo na FIFA. O comitê executivo tem 24 homens – só homens, nenhuma mulher – e três representantes da América Latina. Se ele renunciou à CBF, porque ele vai continuar representando o Brasil na FIFA?
Os outros dois representantes são o Júlio Grondona, um bastardo corrupto da Argentina, e o Nicolás Leoz, presidente da Conmebol, que eu denunciei como outro corrupto, mostrando que ele roubou cerca de meio milhão de dólares em três propinas diferentes. É horrível ver esses três corruptos nojentos representando toda a América Latina na FIFA.
Então o Brasil deveria mandar o Teixeira para fora da FIFA também. É muito ruim para a reputação do Brasil que o Teixeira tenha sido acusado de tantas coisas e nada tenha acontecido. Veja o caso do jogo de futebol com Portugal, todo o dinheiro que foi roubado ali – e depois o Sandro Rosel, presidente do Barcelona depositou 3,8 milhões de dólares na conta da filha do Teixeira, que tem 11 anos! O que você faria se um homem depositasse 3 milhões de dólares na conta da sua filha pequena? Isso é abuso de menores! Um escândalo!
O Teixeira era cotado para a presidência da FIFA. Ele ainda tem apoio na FIFA?
Não há nenhum apoio. Veja, a FIFA é formada por duas classes de pessoas: tecnocratas, que são só trabalhadores, e no topo estão 24 homens – metade é corrupta, e a outra metade não, mas eles mantêm a boca fechada porque ganham muito dinheiro.
Não tem apoio. Essa história de que ele estava cotado para a presidência é mentira, e os jornalistas brasileiros acreditaram. A América Latina tem apenas 10 votos no comitê, de 200 países. Mas a FIFA já convive com ele, e o Blatter não vai tirá-lo do comitê porque eles estão dormindo na mesma cama. Somente os latinoamericanos podem pressionar para que ele saia da FIFA. Afinal, ele é um representante do seu futebol! Mas veja, nós pegamos o Havelange em dezembro, agora pegamos o Teixeira. O próximo será Blatter.
Como será o fim de Blatter?
Olha, a FIFA sabe que no final as autoridades suíças vão acabar trazendo o caso à tona e publicando os nomes de Teixeira como receptor de US$ 10 milhões em propinas. O Teixeira está tentando protelar a publicação do seu nome, mas é um escândalo que está apenas esperando para acontecer. Agora, o Blatter também será exposto. Deve demorar no máximo um ano. Não tenho a menor dúvida de que vamos pegá-los. Estou absolutamente confiante. Ou seja: não reservem uma cadeira para o Blatter na Copa do Mundo do Brasil. Agora, para acabar com o Blatter, o Brasil pode ajudar. Na sexta-feira, quando ele for a Brasília, a Dilma não deveria encontrá-lo. Devia mandar um burocrata sem qualquer importância, “fale com ele, estou muito ocupada para perder tempo com você”. Esse gesto vai ser visto no mundo todo, e dar força para aqueles que querem derrubá-lo. Vamos lá Brasil, vocês ganharam todas essas Copas do Mundo, agora é hora de dar algo em troca.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O bispo, o aborto e a falta de vergonha

Este editorial merece ser postado aqui. Não é mesmo um desavergonhado esse bispo?

Gerar vida e gerar morte

por Ivone Gebara, editorial de fevereiro, edição 12, do boletim das Católicas pelo Direito de Decidir

Espanta-me a facilidade com que alguns clérigos e bispos afirmam poder distinguir com clareza as forças que geram vida e as que geram morte. Discorrem como se estivessem num campo de certezas. Nem percebem que o próprio uso dessas duas palavras, principalmente nos seus discursos acalorados sobre a importância de escolhermos a vida, conduz quase necessariamente a defender armadilhas de morte e provocar formas sutis de violência. O que é vida? O que é morte? É possível que a morte se sustente fora da vida e a vida fora da morte? Não somos nós vida e morte ao mesmo tempo? Não somos sempre aprendizes, caminhando trôpegos, dando um passo depois do outro nas escolhas diárias que tentamos fazer?

Faz algum tempo que a Igreja Católica no Brasil vem desenvolvendo uma linha equivoca de defesa da vida. Quando falam da defesa da vida reduzem o termo vida à vida do feto humano e, assegurados da vida do feto, esquecem-se de todos os outros aspectos e personagens reais da complexa teia da vida. Fico me perguntando de novo porque insistem nesse erro e nesse limite lógico, condenado também de muitas maneiras pelos muitos filósofos e teólogos da Tradição Cristã. Distanciam-se até das últimas reflexões de Bento XVI que, com justeza, discorre sobre a complexidade da vida no universo, incluindo-se a vida humana.

Espanta-me constatar mais uma vez a pouca formação filosófica e teológica de parte do episcopado e de muitos clérigos que se arvoram a defender a vida, mas atiram pedras em pessoas que consideram “mal-amadas” só por defenderem um ideário diferente do seu. Por que “mal-amada” ou “mal-amado” seria uma forma de menosprezar ou diminuir as pessoas? O que de fato querem dizer com isso?

Não somos todos nós necessitados de amor? Não é o amor a missão cristã? Não é para os desprezados, esquecidos e mal-amados que o Cristianismo diz manter sua missão a exemplo de Jesus? É desconcertante perceber que usam expressões desse tipo e instrumentalizam a mensagem cristã para afirmar desacordos de posições, como o fez D. Benedito Simão, bispo de Assis e Presidente da Comissão pela vida da Regional sul I da CNBB. Em entrevista ao Grupo Estado de S. Paulo, na semana passada, por ocasião da escolha da Professora e Doutora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, o referido bispo classificou a nova ministra de “mal-amada” e, com isso, desrespeitou-a e incitou ao desrespeito e à falta de diálogo em relação à responsabilidade pública de enfrentar os sérios problemas sociais.

Seria o bispo então um privilegiado “bem-amado”? A partir de que critérios?

O desrespeito às histórias e escolhas pessoais, às muitas dores e razões de muitas mulheres torna-se moeda corrente em muitas Igrejas cristãs que se armam para uma chamada “guerra santa”, sem a preocupação de aproximar-se das pessoas envolvidas em situações de desespero. Usam sua autoridade junto ao povo para gritar palavras de ordem e, em nome de seu deus, confundir as mentes e os corações.

Perdeu-se a civilidade. Perdeu-se o desejo de consagração à sabedoria e ao bom senso. Perdeu-se a escuta aos acontecimentos e à aproximação respeitosa das dores alheias. Apenas se responde a partir de PRINCÍPIOS e de pretensa autoridade. Mas o que são os princípios fora da vida cotidiana das pessoas de carne e osso? Qual é o teto dos princípios? Quem os estabelece? Onde vivem eles? Como se conjugam nas diferentes situações da vida? O convite ao pensamento se faz absolutamente necessário quando as trevas da ignorância obscurecem as mentes e os corações.

Nesse momento crítico de descrença em relação a muitos valores humanos, as atitudes policialescas de um ou mais bispos, de clérigos e pastores assim como de alguns fiéis nos apavoram. A ignorância das próprias fontes do Evangelho e a instrumentalização da fé dos mais simples nos espantam. A democracia real está em risco. A liberdade está ameaçada pelo obscurantismo religioso.

De nada servem palavras como diálogo, escuta, conversão, solidariedade, respeito à vida quando, na prática, é a violência e a defesa de idéias pré-concebidas que parecem nortear alguns comportamentos religiosos públicos. Seguem esquecendo que não se deve tomar Deus em vão. Não apenas seu nome, pois isso já o fazem. Tomar Deus em vão é tomar as criaturas em vão, selecionando-as, desrespeitando-as e julgando-as de antemão. Nós todas/os temos palhas e traves em nossos olhos e eu sou a primeira. Por isso, cada pessoa ou grupo apenas consegue ver algo da realidade, que é sempre maior do que nós. Entretanto, se quisermos enxergar um pouco mais, somos convidadas a nos aproximar de forma desarmada dos outros. Somos desafiadas a ouvir, olhar, sentir, acolher, perguntar, conversar como se o corpo do outro ou da outra pudesse ser meu próprio corpo, como se os olhos e ouvidos dos outros pudessem completar minha visão e audição. E mais, como se as dores alheias pudessem ser de fato minhas próprias dores e suas histórias de vida, minhas mestras. Só assim poderemos ter um pouco de autoridade com dignidade. Só assim nossa belas palavras não serão ocas. E, talvez, nessa abertura a cada dia renovada, poderemos acreditar na necessidade vital de carregar os fardos uns dos outros e esperar que a fraternidade e a sororidade sejam possíveis em nossas relações.

* Ivone Gebara é doutora em Filosofia e em Ciências Religosas. Integra o Conselho Consultivo de Católicas pelo Direito de Decidir

Carlinhos Brown

  Após assistir à frustrada premiação do Oscar para Brown. Digo frustrada, para muitos, pois eu fora, porque, além de acreditar que seria muito difícil para ele conseguir tal intento, competindo com norte-americanos, tenho a certeza de que a obra de sua coautoria somente chegou aonde chegou por causa de um dos três coautores, que é nada mais, nada menos do que o brasileiro, americanizado, Sérgio Mendes.

Bem, mas eis que do blog de Luis Nassif, encontro uma pérola de documentário, denominado O documentário 'El Milagro de Candeal'

que é uma linda e emocionante homenagem à obra intelectual e, especialmente, às vitoriosas realizações no campo social de Carlinhos Brown, promovendo uma verdadeira revolução social no Candeal.

O trabalho intelectual de Brown é por demais conhecido, embora gere muita controvérsia e quem sou eu para nesse barco entrar. O milagre que ele consegue no plano social, ah! Isto é incontestável.

Infelizmente, não consigo levar o vídeo para o blog. Assim, estou enviando-o via e-mail para umas pessoas e quem se interessar pode acessar o blog de Luis Nassif (advivo.com.br) e procurar a postagem que é datada de 29/02/2012.
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A GREVE DOS POLICIAIS MILITARES

Com apreensão acompanho toda esta crítica situação porque o povo baiano estamos passando. Acompanho com apreensão, repito, e procuro tirar minhas próprias leitura e conclusões sobre os acontecimentos; portanto, excluo completamente a influência da “grande midia” sobre minhas opiniões, como já se tentou insinuar. Assim, transcrevo o artigo de Mauro Santayana, jornalista, para mim de alta credibilidade, não só pelo seu passado como também pelo que faz presentemente, cuja opinião eu endosso completamente, pelo que o transcrevo a seguir e logo após a transcrição, anexo uma rápida biografia do jornalista em causa.

insurreição na Bahia e a segurança dos cidadão

Mauro Santayana

O direito de greve é historicamente associado ao conflito entre o capital e o trabalho. Não é preciso retomar o pensamento clássico da esquerda para entender que o trabalhador deve ter o direito de cruzar os braços quando, em seu entendimento, as condições impostas pelos patrões se tornam insustentáveis. Na realidade, quem tem apenas a capacidade de seus braços; de sua  inteligência;  ou de sua habilidade em operar as máquinas, tem o inalienável direito de se recusar a continuar dentro das mesmas condições, e de exigir, mediante a interrupção do trabalho, novo trato. No ordenamento jurídico do Estado de Direito, a Justiça (em nosso caso, a do Trabalho) é chamada a intervir no conflito e buscar a conciliação entre as partes.
Os Estados modernos exercem o monopólio constitucional da violência, embora deleguem esse direito – que não poderia ser estendido a ninguém – a organizações privadas de segurança. Esta é mais uma deformação do Estado de Direito, que a  sociedade não deve admitir. Deixando de lado essa anomalia anti-republicana e antidemocrática, convém meditar o papel das forças de segurança.
As corporações policiais, dos Estados e da União, são instituições construídas a fim de exercer a coerção, em nome do Estado, para o cumprimento das leis e da  manutenção da ordem pública. Cabe-lhes prevenir e investigar os delitos, cumprir as ordens judiciais e assegurar a incolumidade dos cidadãos. Às Forças Armadas, além de garantir a inviolabilidade do território nacional, incumbe garantir a ordem interna, desde que convocadas por um dos três poderes republicanos. O Exército não pode substituir a polícia, mas tem o dever de reprimir os policiais amotinados.
Os policiais e militares, nas sociedades contemporâneas, não podem ser definidos como simples trabalhadores. É difícil aceitar que, como servidores públicos encarregados de garantir o pleno funcionamento dos estados, tenham o direito de ameaçar a administração e, mais do que ela, a República. Podem exercer o direito de reivindicar seus possíveis direitos junto às várias esferas do Estado, conforme garante o sistema democrático, mas não podem fugir ao cumprimento de seu dever para com o povo – o povo que, mediante os impostos, mantém os Estados e os seus funcionários.
Em razão disso, a Constituição é clara, quando nega aos militares – a todos os militares, subordinados funcionalmente à União ou aos Estados – o direito de sindicalização e de greve, no item IV do parágrafo terceiro de seu artigo 142.  Mas não apenas os policiais militares estão impedidos de paralisar as suas atividades: os policiais civis também estão sujeitos à norma, conforme assegurou o STF, pelo pronunciamento de seus ministros Eros Grau, sobre a greve de policiais civis de São Paulo (em 2008), e César Peluso, sobre greve idêntica no Distrito Federal, em novembro do ano passado.
A greve dos policiais militares da Bahia é um claro movimento de rebelião contra o Estado, e assim deve ser tratada. O governo federal agiu como deve agir, em qualquer situação semelhante. A solidariedade federativa, necessariamente exercida pela União, implica no emprego de toda a força possível, a fim de assegurar o cumprimento das normas constitucionais, como a que veda a militares – e, por analogia jurídica – a policiais civis, o recurso da greve.
Recorde-se a corajosa atitude tomada pelo presidente Itamar Franco, quando a Polícia Federal decidiu paralisar as suas atividades na capital da República. Ainda que Itamar, na análise dos fatos em seu gabinete, entendesse as razões dos grevistas, não titubeou em agir com firmeza, a partir da conclusão de que as corporações armadas não fazem greve, e, sim, se sublevam contra a República. O Presidente determinou ao Exército que dissolvesse a mobilização dos grevistas, na sede da Polícia Federal e, a fim de não alarmar a população, ordenou que a operação se fizesse à meia-noite.
Não cabe discutir se o governador Jacques Wagner agiu de uma forma, quando estava na oposição, ao apoiar movimento semelhante, e age de outra, agora. Um erro anterior, motivado pela conveniência partidária eventual, não pode impedi-lo de exigir agora o cumprimento da lei, em favor da ordem. A greve dos policiais trouxe o aumento da violência contra os cidadãos, conforme o registro dos atos delituosos dos últimos dias.
Os policiais militares baianos não se encontram em greve, mas em rebelião contra o Estado e, por extensão, contra a República, cuja Constituição os obriga a manter a lei e a ordem. Registre-se que o líder do movimento é um ex-militar e que, portanto, não tem legitimidade para chefia-lo. Como se encontram em rebelião, cabe ao Estado, no uso moderado de sua força e seu poder, exigir-lhes rendição imediata e usar dos dispositivos legais para punir os responsáveis pelo movimento.
Essa providência é absolutamente necessária, quando se sabe que movimentos semelhantes estão sendo articulados em outros Estados, a fim de obrigar à equiparação dos vencimentos dos policiais militares de todo o país aos dos seus colegas do Distrito Federal. Ora, cada estado fixa o vencimento de seus servidores conforme a sua receita tributária. Há informações de que se planeja uma greve de policiais militares e civis – incluindo o Corpo de Bombeiros – em São Paulo, para o dia 18 deste mês. Qualquer leniência na Bahia poderá significar  incentivo a uma gravíssima perturbação da tranqüilidade pública no resto do país.
Isso não impede que os policiais militares, usando dos meios legais, façam  reivindicações aos seus superiores, a fim de que estes, como delegados dos governos, as levem às autoridades. Reivindicar remuneração maior e melhores condições de trabalho, por meios legítimos, é um direito inalienável de todos, mas o direito de greve é constitucionalmente restrito.  Fora disso, qualquer movimento de greve, por servidores armados, como ocorre agora na Bahia, não passa de insurreição, que deve ser contida, sem hesitações.

Mauro Santayana (Rio GRande do Sul, 1932) é um jornalista brasileiro.
Embora tenha estudado apenas até o segundo ano do antigo primário, o equivalente ao atual terceiro ano do ensino fundamental, ocupou, como jornalista, cargos destacados nos principais órgãos de imprensa brasileiros, especialmente na mídia impressa, como Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, no qual mantém uma coluna sobre política. Também escreve regularmente para a [[Carta Maior],é comentarista de televisão e mantêm um blog, onde escreve artigos e crônicas, cujo link é www.maurosantayana.com.
[editar] Vida políticaEm 1964, ano do golpe militar no Brasil, colaborava com o embaixador Mário Palmério, no Paraguai, nas negociações para a implantação da hidrelétrica de Itaipu. Exilou-se, então, durante mais de dez anos, no Uruguai, no México, em Cuba, em Praga, na Checoslováquia. Trabalhou como jornalista e chefe das emissões em português da Rádio Havana, em 1966, e como comentarista político da Rádio Praga, entre 1968 e 1970. Em Bonn, na Alemanha, foi correspondente do Jornal do Brasil (1970 - 1973).
É comentarista de TV e colaborador de diversos jornais, como "free lancer". Dois anos depois de voltar do exílio, em 1976, foi diretor da sucursal da "Folha de São Paulo" em Minas, até 1982, quando escrevia uma coluna diária de política. Foi chefe de reportagem do "Diário de Minas", 19551958 em Belo Horizonte - MG, secretário de redação da "Última Hora", 1959, (RJ), comentarista econômico da "Revista Panorama Econômico Latino-Americano", 1965, Cuba, e colaborador da "Gazeta Mercantil", 1982 - 1992. Escreveu também na revista "Manchete", no jornal mineiro "Binômio", e "Diário de Minas". Fundou na década de 50 o "Diário do Rio Doce", e foi correspondente da Folha de São Paulo em Madrid, e no Norte da África. Atualmente é um dos editores do "Jornal do Brasil" onde mantém uma seção de opinião política.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A FARSA DAS SACOLINHAS PLÁSTICAS

Quando do noticiário na TV sobre a suspensão do uso de sacolas plásticas pelos supermercados e obrigatoriedade para os consumidores levarem consigo “sacolas ecológicas”, veio-me, de pronto, a confirmação do que sempre prevejo. Ainda, em futuro bem próximo, teremos que pagar para acessar as lojas dos supermercados a fim de podermos fazer nossas auto-compras, no que eles chamam de self-service.
Hoje, já se podem ver consumidores, além de ter que procurar os produtos necessitados, pois é raro, muito raro, encontrar-se um empregado da loja para orientá-lo, fazendo, eles próprios, com a maior naturalidade, o empacotamento de suas compras.
Eu, que nem uma agulha empacoto, nesses casos, de minha parte, sempre protestei e protesto, mas constato, com tristeza, a minha impotência diante da atropelada inversão de valores, imposta pelo brutal sistema capitalista.
E, agora, me vem mais esta. Preocupação com o meio ambiente, coisa nenhuma! .

 Por Paulo F.
Do Jornal Alpha Cidade
A farsa das sacolinhas nos supermercados
Mais uma vez estão enganando o povo brasileiro dizendo que o fim das sacolinhas plásticas nos supermercados vai ajudar o meio ambiente. Com certeza vai ajudar, mas vai ser os cofres dos supermercados, já que a partir do dia 25 de janeiro os consumidores serão obrigados a comprar sacolas retornáveis no próprio estabelecimento.

Mas quando você chegar em casa perceberá que na lavanderia, na cozinha, no banheiro ou no escritório há um lixinho que precisa de um saco plástico. Como você não possui mais saquinhos plásticos, será obrigado a comprar sacos de lixo, dando mais dinheiro para os supermercados, continuando a prejudicar o meio ambiente. E tudo isso você tinha de graça.