quinta-feira, 7 de julho de 2011

A MPB NOS TEMPOS DA DITADURA

A MPB NOS TEMPOS DA DITADURA

Os duros tempos da ditadura, sob os quais vivemos desde o início dos anos 60 até os oitentas, são sempre tema, para mim, interessante. Quando leio alguma coisa sobre aquela época, é como se estivesse assistindo a um filme e do qual fosse protagonista (sem querer, de forma alguma, dizer que fui militante político, “terrorista”, etc, etc.). A análise feita por Luis Nassif, sobre aqueles tempos, especialmente sobre o desempenho da música popular e seus autores, em relação ao regime da exceção vivido é realmente uma dádiva, mesmo porque foi provocada pela entrevista dada por Gustavo Alonso à revista Forum, ele que é autor do livro O Silêncio dos Inocentes, em que “questiona mitos da MPB à época da ditadura militar e defende que o arbítrio existiu não devido à passividade e da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.”.
“O livro é desdobramento da dissertação de mestrado que Gustavo apresentou em 2007.”
“Como constata Alonso, a maioria da população apoiava a ditadura. E amava Chico.”.
Utilizo esta última sentença (de Nassif) para emitir minha opinião sobre o que se quer discutir nesta postagem. Acho muito simplista afirmar-se que a população apoiava a ditadura. A população, como uma manada segue a diretriz do vaqueiro e este vaqueiro era a grande imprensa, que só noticiava (voluntaria ou involuntariamente), o que interessava aos mandantes de aluguel, como até hoje a grande imprensa somente noticia o que interessa ao sistema (esteja ele ou não representado fisicamente no comando do poder executivo); havia eleições (não tão livres. Para ser bonzinho), votava-se, portanto. Não importando que somente havia dois partidos, com absoluta predominância do partido do governo; o Congresso Nacional “funcionava”; havia a impressão (passado pela grande imprensa) de que se estava a exterminar a corrupção e que o desenvolvimento estava sendo construído (mas, primeiro, dever-se-ia inchar o bolo, para então distribuir), etc.; que manifestações de apoio ao golpe, tal qual “marcha da família com Deus pela democracia”, comandada pela TFP (Tradição, Família, Pátria), TFM (Tradicional Família Mineira), “Opus Dei”, “Dê ouro pelo bem do Brasil”  etc., etc., tiveram amplificadas suas imagens e seus sons, pela mídia dominante, dando aquela impressão de adesão massiva. Tudo entrava nas nossas mentes,-  nós outros, não militantes políticos, não contestadores de primeira hora -, como se estivéssemos vivendo um sonho -, “o sonho do milagre brasileiro”. (o que o historiador fala sobre o que seu pai achava daquela situação é bem emblemático.) A população, a sua grande maioria, era atropelada, pisoteada pelo trator da mídia. Simples objeto, sem poder agir ou reagir, pois, era-lhe indiferente. Para isto se encarregavam os veículos oficiais, órgãos de imprensa em geral (um ou outro conseguia, a todo custo contrariar a lógica vigente). Somente se ouviam vozes simpáticas e aparições de políticos que eram do esquema. Vozes contestadoras? Possíveis lideranças contestadores?  eram ouvidas, sim. Mas no DOI-CODI.
Como afirmar que a população apoiava a ditadura?
Ah, sim! Sobre a MPB. Sem entrar no mérito da questão (como diria o Dr. Advogado), somente tenho a dizer que aquele período de “mordaça”, ironicamente, fez um bem danado para a nossa música. A fertilidade musical correu solta. Ajudou-nos a “agüentar o tranco” e, ainda, talvez por vias indiretas teve uma importância muito grande na conscientização política de uma grande parte da população, na qual me incluo. E relativizar a importância da MPB naquele contexto, por que?
Segue o texto de Nassif e a entrevista já referida.
Acompanhei de perto esse período mencionado pelo historiador Gustavo Alonso – que na entrevista a Pedro Alexandre Sanches, na revista Fórum (abaixo) analisa a politização da música brasileira no período da ditadura. Aliás, desisti de ser crítico de música da Veja, aos 24 anos, devido ao terrível patrulhamento que permeava o setor – como uma compensação pelo fato de pouco se poder falar contra a ditadura na política e na economia.
Criou-se um clima terrível, no qual as maiores vítimas eram os músicos, tanto os amaldiçoados, como Simonal, como os medalhões, como Chico e Caetano.
Jamais Chico ou Caetano se arvoraram em líderes contra a ditadura. Sempre foram suficientemente inteligentes para perceber seus limites políticos. Preocupavam-se em exercitar sua arte e a reagir aos esbirros da censura. E jamais Chico Buarque se outorgou o papel de símbolo. Sua estatura moral decorreu da sua música, do seu caráter, de nunca ter se metido em quizílias, em jogadas oportunistas. Geraldo Vandré foi o único compositor de peso no período a pretender um ativismo um pouco além da música - mas sempre usando a música como arma.
O grande problema é que a MPB, apesar de um público universitário amplo, era muito pequena para exercer qualquer papel político significativo. Vinha de uma certa tradição latino-americana erigir músicos em líderes populares – Violeta Parra, por exemplo. Como era um dos poucos setores com espaço na mídia, foi o próprio jornalismo cultural – e o Pasquim – que tentou transformar músicos em heróis ou vilões. E, obviamente, a enorme burrice dos censores, procurando pelo em ovo – eu, insignificante compositor mal saído da adolescência, tive uma música censurada em um Festival Universitário porque a letra (de meu parceiro João Cleber Jurity) falava em "bengala gala", e o censor descobriu que no nordeste "gala" significava esperma de galo.
O tom do patrulhamento foi dado pelo Pasquim, com seu estilo complicado – havia o Cemitério dos Zumbis, de Henfil, que chegou a "enterrar" Elis Regina e Clarice Lispector por serem "alienadas"
Tanto Chico quanto Caetano se tornaram malditos do regime por suas incursões estéticas, por suas músicas e peças, Chico pela intragável "Roda Viva", Caetano e Gil pelo Tropicalismo.
(Em São João da Boa Vista alugamos um ônibus para assistir o Roda Viva. Voltamos absolutamente decepcionados com a agressividade gratuita da peça, com os atores procurando "interação" forçada com o público.)
Na época, qualquer evento era motivo para manifestações barulhentas dos estudantes, muitas vezes sem nenhum filtro ideológico.
Não se deve esquecer que os três foram tremendamente vaiados pelos universitários "politizados" – Chico no episódio do "Sabiá", Caetano e Gil no Festival Internacional, com "É proibido proibir". A música, aliás, era um desabafo contra a censura dos militares mas também contra o patrulhamento dos militantes. Mais do que contra o regime militar, era contra o terrível clima de disputas políticas (no âmbito do público universitário) que sufocava qualquer manifestação artística. O CCC espancou os atores do Roda Viva; os politizados espancaram "Sabiá". Os mpbzistas fizeram passeatas (!) contra a guitarra e contra a Jovem Guarda.
Havia uma ebulição permanente no ambiente universitário qie seria para tudo e para nada, muitas vezes sem nenhum filtro ideológico mais apurado.
Lembro-me de outro festival universitário da Tupi, no qual Fernando Faro tentou inovar montando uma proposta estética diferenciada. Minhas músicas "certinhas" foram desclassificadas. Entrou uma música experimental (bem ruinzinha). Com receio da indiferença, resolvemos ao menos provocar vaias. E entramos no palco vestidos de mendigos. Foi uma vaia só. Aí o apresentador pegou o microfone, espinafrou o público, disse que era contra o que fazíamos mas defenderia até a morte nosso direito de fazer. E o público se calou, para nossa decepção.
Nome do apresentador: Flávio Cavalcanti, símbolo máximo do regime militar na televisão. Voltamos para São João e Poços decepcionados: nossos ídolos, os agitadores universitários de São Paulo, calavam-se como crianças mal comportadas levando bronca do bedel.
Chico se consagrou com o grito de desabafo "Apesar de Você", refletindo o maravilhoso estado de espírito nacional, quando a democracia começa a voltar; assim como "Coração de Estudante", de Milton Nascimento.
Mas, mal começou a abertura, com a antiga oposição tomando o poder e se esfarelando em disputas por cargos, deu uma entrevista tirando o time de campo. Não se leu mais entrevista política de Chico, apenas manifestações de apoio a Lula em períodos eleitorais. É injusto com ele falar em oportunismo político com "Apesar de Você". Ora, se o compositor popular não capta o clima da opinião pública, que raio de popular é ele?
O grande problema da análise da MPB no período – que acomete a Internet, nas disputas ideológicas – é se tomar a parte pelo todo. A parte era um mundo pequeno, composto de críticos, músicos e um público restrito.
Como constata Alonso, a maioria da população apoiava a ditadura. E amava Chico.
O silêncio dos inocentes 
Livro do historiador Gustavo Alonso questiona mitos da MPB à época da ditadura militar e defende que o arbítrio existiu não devido à passividade e da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.
Por Pedro Alexandre Sanches
Chico Buarque é o anti-Wilson Simonal. Essa tese não é o fio condutor do livro ensaístico Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, do historiador Gustavo Alonso. Mas é a conclusão mais polêmica e perturbadora a que chega o trabalho de um pesquisador que se afirma de esquerda, mas está disposto a contestar mitos e dogmas acalentados desde a ditadura cívico-militar brasileira, seja à direita ou à esquerda.
O livro é desdobramento da dissertação de mestrado que Gustavo apresentou em 2007 à Universidade Federal Fluminense (UFF). A demora de três anos da Record em editá-lo faz com que chegue simultaneamente à conclusão de sua tese de doutorado, sob o título Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. A linha seguida em ambos é análoga à do também historiador Paulo Cesar de Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro, não (Record, 2002), que explicitava preconceitos classe escondidos atrás da habitual trincheira de guerra aberta entre a sigla MPB e grupos artísticos rejeitados por ela.
O recorte de Gustavo se estende à própria ditadura de 1964. Despreocupado em culpabilizar ou inocentar Simonal das acusações de deduragem que a partir de 1971 dizimaram uma carreira até então gloriosa, o historiador quer mostrar que Simonal era um apoiador da ditadura, sim, mas estava longe de ser o único. Invertendo o ponto de vista habitual, encaixa seu personagem à evidência de que o arbítrio existiu não devido à passividade e apatia da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.
Memórias como a de um Chico Buarque heroico, defensor de todos contra os militares, seriam uma construção (ou distorção) posterior, assim como a de um Wilson Simonal maquiavélico e solitário na defesa de um regime, contra todo um país de vítimas 100% inocentes. É onde Chico seria o anti-Simonal, embora isso nunca seja proferido.
Gustavo, niteroiense nascido por acidente na cidade paulista de Aparecida, durante uma viagem do pai engenheiro e da mãe nutricionista, desenvolve na entrevista abaixo a provocação, questionando o papel de resistência atribuído à peça teatral Roda Viva (1968), de Chico, ou traçando semelhanças entre a hoje hegemônica Tropicália e o movimento da pilantragem, proposto por Simonal e interrompido com sua derrocada.
Fórum – De que lugar ideológico você defende as hipóteses de seu livro?
Gustavo Alonso – Eu me defino como de esquerda. Ainda acho essas categorias válidas, mas não estou muito disposto a adubar, proferir ou louvar certas histórias que foram contadas e viraram mitologia, mesmo na esquerda. Acredito que esquerda e direita existem, sim, mas gosto de desestabilizá-las e distorcê-las um pouco. Se é que se pode meter outra questão nessa polêmica, prefiro o tropicalismo, à medida que ele é e não é a esquerda, e é e não é a direita. Talvez seja a esquerda da esquerda, não sei. É melhor que a crítica da esquerda venha da esquerda. A crítica de direita volta e meia cai num moralismo muito grande. Sou de 1980, da geração que não viveu o auge da MPB, os festivais, os anos 1960 e 1970. Não gosto da palavra declínio, mas a MPB já não era o que era antes, e minha geração teve que lidar com esse legado. Algumas pessoas dizem: “Ah, você não viveu”. Como se fosse necessário viver a escravidão pra saber o que ela foi.
Fórum – Você não viveu também o auge da ditadura. O que isso significa para seu trabalho?
Gustavo – (Silêncio.) Boa pergunta. (Silêncio.) A questão da ditadura é um pouco a mesma questão da MPB. Talvez ter vivido naquele período intenso impossibilite perceber certas coisas através da memória, até porque a memória pode construir noções que não correspondam tanto à realidade. Talvez o olhar desta geração possa abrir novas possibilidades de análise e entendimento. Acho que o fato de eu não ter vivido a ditadura não chega a ser uma desvantagem. Também não diria que é uma vantagem, não. É um outro olhar. Falando disso mais pessoalmente, minha família, principalmente minha mãe, tem a referência da resistência à ditadura muito forte dentro dela. No entanto, as questões da esquerda da época não fazem sentido nenhum para ela. Questão da terra? É a favor do grande produtor rural. Igualdade social? Não, não tem que ter igualdade pra todo mundo. Encontrei o diploma de engenheiro do meu pai e vi que ele se formou em 17 de dezembro de 1968, quatro dias depois do AI-5. Meu pai não tem lembranças positivas da ditadura, mas nem negativas. Perguntei: “Pai, você se lembra da promulgação do AI-5?” “Não.” “Mas, pô, foi quatro dias depois, você não se recorda se teve confusão?” “Não, não teve.”
Fórum – Seu pai é o brasileiro médio de que você fala no livro, como Simonal?
Gustavo – É, um pouco indiferente, mas que ao mesmo tempo teve sua vida construída durante o período, como grande parte da sociedade brasileira. Eu queria menos tentar repudiar isso, afinal, bem ou mal, sou fruto disso, e mais tentar entender. Como assim? Como se viveu a ditadura de forma normal? Como apenas 4 mil pessoas estiveram direta ou indiretamente envolvidas com a resistência? Que legitimidade tinha essa ditadura na sociedade? A que anseios autoritários ela respondeu? Isso me possibilitou uma percepção para além da memória, porque essa memória eu não tenho. Não lembro o que é Medici discursando, ou Simonal cantando, ou Caetano no festival. Tenho a lembrança de vídeos. O livro teve inspiração nos questionamentos que a gente anda tendo no Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da UFF, com Daniel Aarão Reis, Denise Rollemberg, uma série de professores que vêm tentando repensar a ditadura, o apoio, a legitimidade, o consenso. Não para dizer que era válida, que é a leitura que a direita faz e muitas vezes a própria esquerda também faz dessa interpretação – ou seja, de que estamos relativizando a ditadura e por isso compactuamos com ela. Não é disso que se trata. Daniel Aarão, que é meu orientador, foi um dos caras que sequestraram o embaixador norte-americano. E é acusado por uma parte da própria academia de ser de direita.
Fórum – A mídia nos últimos anos tem a obsessão de querer determinar se Simonal era culpado ou inocente. Vou martelar nessa tecla, até porque sua posição parece diferente de todas as outras. Simonal era inocente ou culpado?
Gustavo – (Respira fundo. Silêncio.) Também não tenho provas cabais de nada, não consegui achar. Eu diria: ele seria um cara que poderia dedurar. Mas quem ele iria dedurar especificamente, Chico, Caetano? Não precisaria da pessoa dele para fazer isso. Mas era um cara que, como a maior parte da sociedade brasileira, estava vivendo a ditadura como uma solução, e não como uma coisa a ser combatida. Vivia como expressão dos seus próprios desejos, autoritários, sim, antidemocráticos, sim, desenvolvimentistas e economicistas, sim. Tentar trabalhar com um Simonal ingênuo? Ele não era ingênuo em nenhum momento. Além de transformá-lo em vítima, o transforma em vítima como se fosse apolítico, como se não se envolvesse nas discussões. Pelo contrário, estava sempre afirmando coisas, dizendo. Uma parte da academia tem essa ideia de que as pessoas eram caladas, reprimidas, que se tivessem o direito de falar falariam contra a ditadura. Mas o que a gente vê na música mais popular é que eles estão performando o regime, mais do que estão compactuando. É o regime que compactua com eles, é legal inverter.
Fórum – Sem entrar em questões maniqueístas de “inocente” e “culpado”, você defende que Simonal não era um cara inocente.
Gustavo – Sim, não foi escolhido para bode expiatório à toa. Bode expiatório é bode. Que ele era favorável ao regime, é inegável – como a maior parte da sociedade brasileira. Foi pro México, serviu de embaixador da música brasileira, do futebol, da sociedade. É a mesma situação do Pelé, mas o Pelé é mais gelatina. Roberto Carlos sempre foi gelatina, sempre fugiu dessas discussões. Simonal é o contrário do Roberto nesse sentido. Ele metia o dedo, era chato, provocante, irônico, debochado. Tanto é que o tom do escárnio que se tinha com Simonal depois da queda é muito parecido com o tom que Simonal tinha antes com as esquerdas louvadoras do samba. O maior problema é que inocentar o Simonal é continuar vendo o problema pela metade. É mais que isso, é tentar reintegrá-lo ao padrão da MPB sem problematizar a ditadura na MPB.
Fórum – Qual é sua leitura do papel de Chico Buarque, tido como um herói que nos defendeu da ditadura?
Gustavo – Não estou aqui pra dizer que essa imagem não tem validade. Ao contrário, está provado que é uma boa imagem. Mas ele não nasceu resistente, não é resistente desde o bercinho. Isso fica muito nublado na historiografia e na academia. Porque é o público dele, o público universitário. Mas a imagem do Chico “Apesar de Você” (1970) é jogada pra trás. É colocada lá desde 1966, tem livros que insistem em falar que em 1964 Chico juntou molotov em casa. Estou pouco interessado nessa grande questão, quero entender que imagem a sociedade tinha dele, assim como de Simonal. Ele podia resistir, mas inicialmente a sociedade não comprava essa imagem. Poderia juntar coquetel molotov, mas daí à sociedade percebê-lo como resistente depende de uma mediação. E tinha os tropicalistas falando que ele era avô musical. Roda Viva é constantemente supervalorizada na obra do Chico. A gente compactua com uma imagem que o próprio Chico quer construir dele, do literato, que daqui a pouco vai entrar na Academia Brasileira de Letras. Não se trata de afirmar o bom ou ruim romancista, como foi o debate com a Companhia das Letras, a Record, a Veja. O texto de Roda Viva é uma crítica à jovem guarda. A questão é que foi montada pelo Zé Celso Martinez Corrêa. Aliás, é engraçado que não existe o livro Roda Viva. Foi lançado lá em 1968 e depois nunca foi reeditado, e o próprio Chico considera uma peça menor, já falou em várias entrevistas que não gosta muito.
Fórum – Outra lebre que você levanta é da tradução do livro Yellow Submarine, dos Beatles, pelo Nelson Motta, que também nunca foi reeditada.
Gustavo – É aquela confusão entre pilantragem e Tropicália. Pepperland virou Pilantrália e o chefão lá da terra virou Superbacana (título de uma canção tropicalista de Caetano). Nelson Motta misturou os dois, nesse espírito do colorido, da ironia, da brincadeira. Toda vez que levantei essa questão da semelhança, na própria academia, tomei pau. Com exceção do Caetano, todas as pessoas que entrevistei, inclusive os pilantras, reagiram contra essa semelhança.
Fórum – É dessas convenções que todos repetem igual sem muito saber por quê.
Gustavo – A memória que se constrói hoje sobre Simonal quer recolocá-lo na MPB, e pra recolocá-lo não pode problematizar a MPB, o tropicalismo, a bossa nova. Tem que colocar ele de volta lá, então tem que falar ele era um bom bossanovista, um showman maior que Roberto. Nesse ponto, Caetano acaba ficando muito parecido com a memória daqueles que ele combateu na esquerda mais tradicional. Ele, e os tropicalistas em geral, se coloca como um vanguardista, um visionário – e é de fato. Mas isso explica também, em parte, o esquecimento do Simonal. Até recentemente, era a memória fundada no dedo-duro, ou então não se falava do Simonal. E o tropicalismo ajudou, não a dizer que era dedo-duro, mas a silenciar, porque afirmar Simonal seria colocar ele como concorrente. Ele era Roberto Carlos com Jorge Ben e com Chacrinha, os três juntos, os três mitos dos anos 1960 para o tropicalismo, reunidos na mesma pessoa. Por que o tropicalismo não incorporou? É a mesma questão que levanto pro Chico. Até a volta do exílio a memória que se tinha dele era do cara muito bom por fazer músicas tradicionais, “o novo Noel Rosa”. Esteticamente ele sempre foi visto como um grande cara, desde o começo, eu não negaria isso, mas politicamente ele não era visto como combativo. Chico era feito não só pelas esquerdas no início dos anos 1970. Volta e meia era incorporado pela direita, Jarbas Passarinho gostava dele. Chico agradava uma determinada direita folclorista.
Fórum – E o texto de Roda Viva, na sua opinião, não era de resistência?
Gustavo – O texto, tenho certeza absoluta que não é, não era contra a ditadura. Não há nada ali, só há uma denúncia da indústria cultural, do rock, da música importada. A gente acaba compactuando com a imagem que o Comando de Caça aos Comunistas deu pra Roda Viva. O que o CCC via? Via como uma peça subversiva. Aí dizemos: Roda Viva era uma peça subversiva, por isso foi reprimida, acuada, invadida pelo CCC. Essa imagem não se sustenta no texto. Tanto é que a montagem gerou problemas com o Chico Buarque. Zé Celso queria problematizar a chicolatria, chegou a propor um cartaz com os olhos de Chico boiando no cartaz como se fosse num açougue, ironizando a chicolatria. Quem tinha esse perfil debochado, irônico, era o Zé Celso, mas isso é creditado ao Chico, pra provar que ele estava resistindo lá em meia oito.
Fórum – O livro fala do exílio na Itália como divisor de água entre os dois Chicos.
Gustavo – Esse período na Itália é interessante pra repensar essa metamorfose do Chico, mas não chega aqui no Brasil. Eu só soube pelo Luca Bacchini, um italiano que fez essa tese lá. Chico Buarque foi vendido na Itália como um cantor de protesto. Era isso que os italianos queriam, ou a gravadora RCA achava que queriam – ele não fez nenhum sucesso lá. Achavam que assim iam fazer dos discos dele um sucesso, mas logo perceberam que só “A Banda” tocava lá.
Fórum – A RCA se baseou no que estava acontecendo no Brasil, que existia uma ditadura e uma resistência contra ela?
Gustavo – É, uma sala secreta de uma gravadora percebeu isso. Nesse caso a indústria cultural ajudou a forjar a imagem do Chico Buarque, o que é paradoxalíssimo. Ele acatou essa forma de ser vendido, mas parece que foi percebendo que era um desejo de um determinado grupo social no qual estava inserido. Depois dessa experiência italiana, ele meio toma a tocha do Geraldo Vandré. Não só ele, vários artistas perceberam que convinha cantar um som mais identificado às universidades, que sempre foi o público da MPB. É uma percepção que não veio desde o berço, se deu no cotidiano, nas disputas. Elis Regina fez isso. Chico percebeu logo, e depois disso virou esse mito. A imagem que ele quer pra si e a que a sociedade tem dele são muito coladas, muito simbióticas. Ficou tão forte que algumas problematizações que eram jogadas pra outros artistas não eram jogadas pro Chico. Ele nunca foi questionado, por exemplo, por gravar por uma grande multinacional. Era um compositor inicialmente de sambas, modernos, mas sambas. Como assim, se você está defendendo um ideário nacional, popular? Deveria ser um problema para pessoas que têm um ideal nacional-popular com cores revolucionárias.
Fórum – Não é curioso que Chico passou a se negar a politizar sua obra e hoje se recusa a dar entrevistas? Talvez já tenha se tocado disso tudo?
Gustavo – Tendo a achar que sim. Ele é atento a essas questões. Ao mesmo tempo, é refém dessa imagem de medalhão, que ele mesmo e os outros criaram pra ele. Como Simonal também era refém da imagem que se criou dele. Por isso acho interessante pensar os dois juntos.
Fórum – Chico é o anti-Simonal? Isso não é verbalizado, porque se não existia o Simonal não existia também o anti-Simonal. Mas existia.
Gustavo – Na memória coletiva ficou entronizado assim, o que foi extremamente lucrativo pra ele, e ainda é. Sou um cara que passou a ouvir Chico com 21 anos. Não gostava, sinceramente, achava música de velho. Minha geração tem a possibilidade de fugir do mito de Chico Buarque, o que não é de nenhuma forma desmerecê-lo, mas tentar compreender de que forma esse mito foi gestado. Isto me espanta: as pessoas, na universidade, têm mil teorias pra explicar a complexidade do mundo, mas citou Chico Buarque, acabou a complexidade, chapou tudo, Chico resistiu e acabou, ponto. Comecei a pensar essas coisas naquela onda insuportável de Los Hermanos, em 2003. Adoro Los Hermanos, mas os losermaníacos são muito chatos, não consigo conversar com eles. São chicólatras nesse sentido, nada é comparável, nada chega a esse degrau. Outra coisa que me levou a pensar essas questões foi aquele plebiscito das armas, em 2005. Fiquei muito impressionado com o tom agressivo da sociedade. Eu era contra as armas, fui acusado de ser pró-Globo, de querer que a população fosse passiva. O tom era agressivo, ostensivo, meio Veja, principalmente da galera a favor da continuação das armas.
Fórum – É mesma sociedade que quis uma ditadura algumas décadas antes? É o que você diz no livro: a sociedade quis, permitiu, apoiou, e hoje tem vergonha, e Simonal é um bom bode expiatório pra deixar tudo embaixo do tapete.
Gustavo – Sim, mas o mais interessante sobre o Simonal é a reabilitação, a inocentação. Daqui a pouco todo mundo vai estar inocente, ninguém apoiou. Já é meio assim.
Fórum – A ditadura existiu porque a maioria da sociedade queria?
Gustavo – Infelizmente. A própria noção de ditadura militar corrobora isso, como se a ditadura tivesse sido militar. Os presidentes foram militares, mas todo o staff deles era civil. O Congresso fechou algumas vezes, mas havia Congresso. Mais que isso, havia eleições. Com meus familiares esse é um ponto que sempre incomoda muito, quando pergunto: “Vem cá, você votava em quem?”. “Não, não votava.” “Como não votava? Você era servidor público, como não votava?” “Não, não tinha eleição, não.” “Não, calma aí, tinha.” Não conseguem responder. Simplesmente esqueceram que iam votar.
Eu estava pesquisando os festejos de 1972 sobre os 150 anos da Independência do Brasil. Foram muitas festas, o corpo de Dom Pedro I veio de Portugal transladado pra ficar no Museu do Ipiranga, visitou todas as capitais, e em todas as capitais teve uma multidão recebendo o corpo. Teve as Olimpíadas do Exército, um mundialito de futebol, os filmes, Independência ou Morte. Era o auge do Milagre Econômico, antes da crise de 1973. Pergunto pras pessoas que viveram: “Não, quem estava lá na rua era obrigado, era estudante que a escola tinha que ir”. Pelos jornais da época, não era bem assim. É triste reconhecer isso, mas me parece melhor do que ficar simplesmente com a noção de que a sociedade foi vítima, não tinha nada a ver. Quem não sabia que as pessoas eram torturadas? Isso não dá. Esse é o problema da imagem inflada do Pasquim e do Chico, parece que estavam falando aquilo que a sociedade falaria se não estivesse calada. Não, quando se incita a sociedade a falar, ela performa aquilo que o regime vai ser no futuro.
Fórum – Ou seja, a sociedade faz a ditadura, e não o inverso.
Gustavo – É, e é uma ditadura civil-militar. E essa imagem dos militares como salvadores da pátria não foi forjada ali, vem desde a Guerra do Paraguai, nos vários golpes preventivos que os militares deram no século XX, todos dentro desse imaginário do exército como representação da sociedade. Não tenho nenhum apego ao exército, mas a sociedade se vê representada nele. É o Bope. Então havia os resistentes, que eram pouquíssimos, e do outro lado as velhas senhoras que apoiavam o regime, o CCC, a Tradição, Família e Propriedade? Não é bem assim. O apoio ao regime era muito maior que esses espectros tradicionalmente conservadores.
Outra coisa que ajudou muito a pensar a ditadura, me entenda corretamente, foi o governo do Lula. Não o governo em si, que é totalmente diferente, mas me chamaram atenção os 80% de aprovação do Lula. É igual ao que o Medici tinha. A sociedade não era passiva, nem o Simonal era passivo ou ingênuo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A FARSA DO CRIME PASSIONAL

A revista ISTO É, desta semana, publica uma reportagem sobre a decisão do STF que põe “um ponto final em um dos crimes mais rumorosos do Brasil: os assassinatos de Paulo César Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino”. É bom que se diga que a referida revista semanal, logo, logo, “remou contra a maré”; por isto, lembro-me bem, publicou diversas reportagens contestando a tese encampada, principalmente, por sua concorrente a outra revista semanal (a “Óia”, para não citar seu maldito nome).
E agora como fica aquele outro, que se diz legista, aquele mesmo que se apresentou na Globo para, com sua "técnica", confirmar a tese da bolinha arremessada contra o candidato tucano, aquela outra farsa, que felizmente não prosperou.
Leiamos pois o texto da revista.  
A FARSA DO CRIME PASSIONAL
Com 15 anos de atraso, o Supremo Tribunal Federal colocou um ponto final em um dos crimes mais rumorosos do Brasil: os assassinatos de Paulo César Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino. PC Farias, como era conhecido o empresário alagoano, foi o tesoureiro do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello. Ele era considerado o maior conhecedor dos esquemas de corrupção que levaram ao impeachment de Collor e apontado pela Polícia Federal como o responsável pela movimentação de dezenas de contas no Exterior abastecidas pelo propinoduto instalado no governo federal. Em 23 de junho de 1996, dias antes de depor em uma CPI que investigava a relação de empreiteiras com o Palácio do Planalto, PC e sua namorada foram mortos na casa do empresário na praia de Guaxuma, litoral de Maceió. Antes mesmo de os corpos serem removidos, os irmãos de Farias, também envolvidos com o governo Collor, e a polícia alagoana passaram a tratar o caso como crime passional. Suzana teria matado PC e se matado em seguida. Uma versão endossada por delegados da Polícia Federal e pela mídia em geral, mas que não tinha nenhuma sustentação em provas técnicas ou testemunhais, como denunciaram diversas reportagens de ISTOÉ desde a primeira semana de julho de 1996. Com base nos relatos de testemunhas, muitas delas ignoradas pela polícia alagoana, e nos estudos feitos por peritos e legistas de todo o País, as reportagens mostravam que PC e Suzana foram vítimas de um duplo homicídio e que a cena do crime fora alterada para dificultar as investigações.
No início deste mês, o ministro Joaquim Barbosa, do STF, decidiu, em última instância, que Adeildo dos Santos, Reinaldo Correia de Lima Filho, Josemar dos Santos e José Geraldo da Silva, ex-seguranças de PC e ainda hoje funcionários da família Farias, deverão ser levados a júri popular acusados como coautores dos assassinatos. A decisão de Barbosa não deixa dúvida. O que ocorreu na casa da praia de Guaxuma foi um duplo homicídio e não um homicídio seguido de suicídio. “O jornalismo praticado por ISTOÉ teve papel fundamental para que a farsa não prevalecesse sobre os fatos”, diz o juiz Alberto Jorge Correia Lima, da 8ª Vara Criminal de Alagoas, responsável pelo processo que apura o crime. Segundo ele, o julgamento dos ex-seguranças de PC deverá ocorrer em setembro.
“Depois de tanto tempo, aumentam as chances de os ex-seguranças serem inocentados, pois os detalhes já não estão mais na memória das pessoas como na época do crime”, lamenta o promotor Luiz Vasconcelos. “Mas só o fato de haver um júri popular comprova que uma farsa estava em gestação.” Em março de 1997, o promotor e o juiz colocaram em dúvida um laudo elaborado pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Unicamp, que procurava impor rigor científico à tese do homicídio seguido de suicídio. Com base em reportagem de ISTOÉ, que, amparada em pareceres emitidos por legistas de diversos Estados enumerou uma série de falhas no laudo de Palhares, a Justiça alagoana convocou três especialistas em medicina forense para mediar o impasse. A conclusão foi a de que todos os indícios apontavam para o duplo homicídio. “Se quatro pessoas estão em uma sala e uma delas é morta, ou o assassino está entre os três que sobreviveram ou eles compactuaram para encobrir uma outra pessoa”, diz o promotor, referindo-se à situação dos acusados. O promotor lamenta que a farsa montada em torno da tese do crime passional tenha impedido que investigações mais profundas fossem feitas. Ele explica que a possível condenação dos ex-seguranças de PC pode representar a punição aos autores dos homicídios, mas que o mandante do crime ainda é um mistério. Em sua denúncia, o juiz Correia Lima chegou a apontar o ex-deputado Augusto Farias, irmão de PC, como o mentor intelectual do crime, mas o STF entendeu que não havia provas suficientes contra o ex-parlamentar. Se a Justiça fosse menos morosa, é provável que todos os mistérios em torno da morte de PC já estivessem resolvidos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Desfecho da Operação Satiagha - Uma vergonha

Retiro do blog de Luis Nassif a postagem abaixo que trata da conclusão dada por instância superior da Justica(?!) ao processo chamado de Operação Satiagaha. Simplesmente, ignoram o crime de lesa-pátria por “entenderem” que as provas obtidas o foram de maneira ilegal. Será que não verei triunfar a Justiça, em sua total acepção?
Vejamos, pois, o que é escrito a seguir.

Enviado por luisnassif, qui, 09/06/2011 - 18:49
Por Jotavê
A grande novidade nesse final melancólico do caso Satiagraha é o silêncio da grande imprensa. Mesmo nos blogs mais fortemente comprometidos com a impunidade, não se ouviu mais do que um murmúrio que tentava, de algum modo, redesenhar o passado, no estilo "eu bem que avisei". Mas ninguém se dispôs a rediscutir o assunto. Ou muito me engano, ou existe um mal-estar difuso na grande imprensa com esse desfecho, para o qual ela colaborou de modo decisivo. É preciso lembrar, neste momento, a coragem de todos aqueles que, no olho do furacão, não se calaram, enfrentando bravamente as próprias empresas em que trabalhavam - Mônica Bergamo, por exemplo, que pôs sua coluna a serviço da Justiça num momento em que seus empregadores secundavam os advogados de Daniel Dantas em editoriais. Houve outros. No fundo, esses bravos profissionais devem hoje sentir-se revoltados, como todos nós, mas também vitoriosos. O que pode significar esse silêncio agora senão vergonha daquilo que foi dito e feito no passado?
O que aconteceu nesse episódio foi muito algo muito simples. Criou-se o mito de um "ativismo político" na Polícia Federal, com ramificações na Justiça. Se Daniel Dantas não estava a salvo, quem mais dentro das elites brasileiras poderia sentir-se a salvo? A sensação (totalmente paranoica, e por isso mesmo completamente desconectada dos fatos) era de que o governo Lula finalmente teria encontrado um meio de dar vazão à sua ânsia de ruptura. A vingança contra a burguesia (???), não vindo pelas mãos de um Henrique Meirelles, viria pelo martelo de um Fausto de Sanctis e pelas algemas de um Protógenes Queiroz. Loucura completa, em estado bruto, disseminada entre jornalistas por quem estava mais próximo de Daniel Dantas, e tinha medo (este sim bastante real) de ser atingido pelos estilhaços. A tese pegou. Era preciso pôr um freio ao "ativismo" do Judiciário, ou a "revolução petista" iria pôr-se em marcha, capitaneada pro de Sanctis. 
Hoje, com a poeira já assentada, vemos a que tudo se resumia, em última instãncia - um delegado, na ânsia de levar a cabo uma operação policial sabotada por seus superiores, usa uma brecha efetivamente existente na lei, e chama agentes da Abin para ajudá-lo nas operações - todas, absolutamente todas devidamente AUTORIZADAS PELO JUDICIÁRIO. Foi em torno disso que o circo se armou. Foi com esse argumento pífio que a impunidade, mais uma vez, triunfou no Brasil. Sem o pano de fundo da paranóia, vemos agora essa gigantesca operação de salvamento reduzir-se àquilo que ela realmente é - uma chicana bem conduzida por advogados matreiros. Nada além disso. Nada que possa entusiasmar ninguém - antes muito pelo contrário. Nada de que alguém possa se orgulhar, enfim, com exceção daqueles que ficaram ao lado da verdade e do bom senso até o final. Até hoje, leio com uma certa reverência a coluna dos jornalistas que resistiram àquela alucinação coletiva. Posso concordar ou discordar de qualquer coisa que qualquer um deles diga, mas sei que se trata de uma pessoa honesta, disposta a honrar sua profissão. Com relação a outros, o sentimento é exatamente o inverso. Ou eu muito me engano, ou fiapos desse sentimento de aversão e nojo podem ser detectados, hoje, até mesmo naqueles que mais colaboraram para que os fatos tivessem o curso que tiveram.



terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre o Transporte de Massa do futuro de Salvador

Amigos, minhas postagens estão ocorrendo com freqüência muito espaçada no tempo, por razões alheias à minha vontade, além da falta de conteúdo que acredite mereça ser divulgado, comentado, mas o assunto que segue é, por demais interessante, principalmente para nós moradores de Salvador.
Do Blog de Luis Nassif, retirei uma entrevista da revista Gente&Mercado com o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo, que avalio como bem esclarecedora quanto aos projetos de mobilidade (transporte de massa) que querem impor-nos, com esta onda de Copa do Mundo. É BRT é VLT. Confesso que, até então, não tinha a menor noção do que seria mais interessante. A opinião do urbanista, leva-me a acreditar que o VLT, desde de que os trilhos sejam assentados em estruturas compatíveis, é um projeto de longo prazo, pois poderá ser transformado em Metrô, quando necessário. Vamos à entrevista e tirem suas conclusões.       

Do Gente & Mercado
Em entrevista exclusiva ao Gente&Mercado, o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo fala sobre o sistema de transporte ideal para Salvador, critica o BRT, que considera defasado, sem capacidade para atender a demanda da cidade, além de causar um grande impacto ambiental. Condena a mudança da estação rodoviária, proposta pelo governador Jaques Wagner, e fala sobre as alterações que querem impor ao PDDU.
G&M – O governo acaba de receber diversas propostas voltadas para a questão da mobilidade urbana de olho na Copa do Mundo. No seu entender, qual a melhor delas?
Paulo Ormindo de Azevedo - A premissa básica é a seguinte: este sistema que vai se implantar do aeroporto até a estação do metrô do Acesso Norte não vai servir para o turista da Copa do Mundo. Quem vem de uma viagem de nove ou dez horas de voo, pagou em torno de US$ 4 mil, não vai pegar o BRT ou o que for, para ir até uma estação de transbordo, que não tem elevador, e chegar na Lapa, que está perto do estádio. É muito mais simples pegar um táxi e ir para o hotel. E é isso que vai acontecer. Os hotéis, como em todo mundo, mandarão vans para pegar seus hóspedes. Então, não é por aí. Está se aproveitando o pretexto da Copa para se implantar um sistema de transporte que se supõe de massa, o que não é mal.
G&M – Na sua opinião, qual o sistema que Salvador precisa e deve ter?
POA – A cidade do Salvador duplicou de população a cada duas décadas nos últimos 50/60 anos. O grande argumento que se coloca em defesa do BRT é que ainda não há demanda para um metrô na direção do Litoral Norte. A questão é a seguinte: ou a gente planeja para 20 ou 30 anos ou então qualquer sistema que se implante vai estar caduco em pouquíssimo tempo. Veja o exemplo do aeroporto. Quer dizer, Salvador dentro de 20 anos deverá ter o duplo da população. Como há uma pequena tendência de desaceleração de crescimento, no máximo, em 25 anos, Salvador terá 6 milhões de habitantes. Uma cidade com essa população não pode prescindir de um sistema de transporte verdadeiramente de massa, o que em outras palavras significa metrô.
G&M – Qual a sua avaliação do BRT (Bus Rapid Transit)?
POA – O BRT, que é um ônibus articulado dentro de uma calha exclusiva, é um sistema na verdade de transporte mediano de tráfego. Ele foi inventado por Jaime Lerner, em Curitiba, há 40 anos, e foi aperfeiçoado na Colômbia com o Transmilênio. Acontece que a cidade de Bogotá é uma cidade plana, de traçado reticular. Mas este não é um sistema possível nas condições de traçado urbano e de topografia de Salvador. Ele pode ser colocado no trecho que vai do Aeroporto até o Iguatemi, via Paralela, porque temos canteiros centrais que permitem criar faixas de trafego local e expresso, mas a partir desse ponto não tem mais como seguir com esse sistema. Nas avenidas de vale é possível tirar uma pista de carro e fazer uma via exclusiva de ônibus, mas em fila indiana. Se um ônibus parar ou quebrar, tudo para. E tem mais, esses ônibus articulados não sobem rampa de mais de 6%.
G&M – E o VLT (Veículo Leve sobre Trilho)?
POA – O VLT, como o próprio nome diz, também não é um sistema de tráfego pesado. No fundo é um trenzinho menor, com três vagões e dois intermediários de articulação, com desempenho parecido ao do BRT, mas que leva algumas vantagens, como a de não exigir a impermeabilização do solo, isto é, usar asfalto. Na Europa toda existe esse modal de transporte correndo em cima de gramado, sobre trilhos. Além disso, não é poluente, não queima diesel. No caso do BRT na Paralela teremos que colocar quatro pistas no canteiro central e isso significa uma faixa enorme de asfalto, numa cidade que já vive inundada porque não tem superfície de absorção. E, por último, para mim decisivo, o VLT pode ser um sistema intermediário entre o que se quer implantar apressadamente para a Copa e a futura linha 2 do metrô (que supostamente sai da Lapa em direção ao Litoral Norte passando pela Paralela, Estrada do Coco). Se forem colocados trilhos com capacidade para suportar o peso de um metrô, dentro de 10 ou 15 anos pode-se substituir o VLT por um metrô, sem interromper praticamente o funcionamento do sistema . Instalando o BRT agora é praticamente impossível substituí-lo depois pelo metrô, porque isso implicaria na paralisação da cidade durante, na melhor hipótese, durante dois ou três anos. Ora, se a Parelela já não funciona a contento agora, imagine parar por esse tempo para se colocar trilhos, substituir os pontilhões etc. A cidade entraria num caos. O BRT é o barato que sai caro.
G&M – Agora se fala também no monotrilho. Seria um sistema viável?
POA – O aeromóvel é um tipo de monotrilho ou monorail. Foi inventado por um engenheiro de Porto Alegre e para efeito de experimentação deveria ter um quilômetro de extensão. Mas nem isso foi feito, só 600 metros. É um bondinho com dois vagões usado para demonstração quando chega alguma autoridade. Não funciona como transporte. É uma brincadeira, uma coisa mais para lazer. Uma desinformação completa das pessoas que estão fazendo essa proposta. Os únicos usos de monorails que se conhecem são dentro de aeroportos, ligando dois terminais, ou em parques de diversão. É um trem que corre em cima de uma viga de concreto, que não permite ter desvios. É um transporte de vai e vem ou em circulo. Então, eu me dispenso de conversar sobre o aeromóvel, porque acho que não tem nada que ver o transporte de massa de Salvador.
G&M – Mudando de assunto, existe uma intenção de realizar alguma alterações no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano). O que significa na prática isso?
POA – Querem fazer um PDDU para contemplar empreendimentos ligados à Copa, é basicamente para permitir fazer hotéis em torno do Dique, na Orla, o que hoje não é permitido. Os grupos hoteleiros dizem, e com certa razão, que temos uma capacidade hoteleira até certo ponto ociosa. Não serão 40 mil turistas – considerando que temos um estádio com capacidade para 45 mil lugares – que vão criar uma crise na hotelaria local. Porque esta mesma cidade recebe meio milhão de turistas durante o Carnaval. Ora, não há necessidade de novos empreendimentos hoteleiros, que só vão aumentar a ociosidade. O que é preciso fazer é reciclar, modernizar os hotéis que temos, que estão velhos, e, naturalmente, investir na qualidade do serviço. Além disso, Salvador é uma cidade marítima, pode-se arrendar navios que sirvam como hotéis. A Grécia fez os Jogos Olímpicos dessa forma.
G&M – Depois de alguma discussão, finalmente o Instituto de Gestão das águas e Climas (Ingá) e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) foram unificados. O que significou isso?
POA – Essa foi uma operação para tornar mais lubrificado o sistema de licenciamento ambiental. A questão principal é o desaparelhamento quase total do Estado de quadros técnicos para, pelo menos, julgar projetos. Essa discussão do sistema modal de transporte na RMS demonstra que não tem ninguém na esfera publica capaz de apontar uma solução bem fundamentada. O estado se transformou num grande balcão. A iniciativa privada, as construtoras, basicamente, trazem projetos que atendem fundamentalmente a seus interesses e oferecem ao Estado, que os compra sem maiores analises. Há uma perda completa de capacidade gestora do estado, que passou a ser uma instância puramente reativa às propostas da iniciativa privada, à pressões populares e aos acidentes ambientais. O estado perdeu a capacidade de antecipação, de planejamento do regional e do local.
G&M – O governador fala em transferir a estação rodoviária e o Detran para Simões Filho, alegando que isso ajudaria a melhorar a questão da mobilidade urbana. Qual a sua opinião?
POA – Em qualquer parte do mundo, a estação rodoviária como a ferroviária está no centro da cidade ou, na melhor das hipóteses, ligada a um eficiente sistema de transporte de massa. Você imagina o povo do interior descer no limite do município de Salvador e pegar um táxi, que vai custar mais que a passagem de ônibus ou então disputar no tapa, com mala e cuia na mão, um buzu? A lógica que reina é a do capital mobiliário, não o do bem estar da população. A rodoviária, como o Detran e o edifício do Desenbahia, estão num ponto que se tornou muito valorizado. Chegou-se a dizer, inclusive, que com esse dinheiro se poderia financiar o sistema de transporte de massa da Copa. Mas o que importa não é o turista é o soteropolitano.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

SOBRE A GUERRA CONTRA A EDIÇÃO DE UM LIVRO DIDÁTICO PELO MEC

Venho acompanhando com interesse a discussão (chamar o que vem acontecendo sobre o assunto de discussão não é bem apropriado, mas vamos lá) que se desenrola com, por um lado: a velha e carcomida, grande imprensa, com seus “letrados” colunistas e opinadores, sempre a serviço do que é mais retrógrado, do capital financeiro internacional e de ideologias que sempre tiveram como “deus” o capital, o lucro; do outro lado, lingüistas, pesquisadores da língua portuguesa, parte da opinião pública que não segue aquela velha imprensa e outros mais. Agora, com prazer, leio um desabafo de jovens professores da língua portuguesa contra o bombardeio a um livro que somente mostra a diferença entre certo e errado e entre adequado e inadequado no nosso linguajar. Conheçamos o que dizem os jovens em contraponto ao que disseram “celebridades” que não se ativeram a ler o livro por eles condenado, como já foram abertamente acusados, pois que se limitaram a criticar frases soltas do contexto geral do livro.
Segue o manifesto, extraído do Blog de Nassif.  

MANIFESTO DE PROFESSORES DE PORTUGUÊS, RECÉMFORMADOS


Enviado por luisnassif, dom, 29/05/2011 - 22:02
 Desinformação e desrespeito na mídia brasileira
Por alguma razão escondida dentro de cada um de nós que escrevemos esse texto tivemos como escolha profissional o ensino de língua (materna ou estrangeira). Por algum motivo desconhecido, resolvemos abraçar uma das profissões mais mal pagas do nosso país. Não quisemos nos tornar médicos, advogados ou jornalistas. Quisemos virar professores. E para fazê-lo, tivemos que estudar.
Estudar, para alguém que quer ensinar, tem uma dimensão profunda. Foi estudando que abandonamos muitas visões simplistas do mundo e muito dos nossos preconceitos.
Durante anos debatemos a condição da educação no Brasil; cotidianamente aprofundamo-nos sobre a realidade do país e sobre uma das expressões culturais mais íntimas de seus habitantes: a sua língua. Em várias dessas discussões utilizamos reportagens, notícias, ou fatos trazidos pelos jornais.
Crescemos ouvindo que jovem não lê jornal e que a cada dia o brasileiro lê menos. A julgar por nosso cotidiano, isso não é verdade. Tanto é que muitos de nós, já indignados com o tratamento dado pelo Jornal Nacional à questão do material Por uma vida melhor, perdemos o domingo ao, pela manhã, lermos as palavras de um dos mais respeitados jornalistas do país criticando, na Folha de S. Paulo, a valorização dada pelo material ao ensino das diferentes possibilidades do falar brasileiro. E ficamos ainda mais indignados durante a semana com tantas reportagens e artigos de opinião cheios de ideias equivocadas, ofensivas, violentas e irresponsáveis. Lemos textos assim também no Estado de São Paulo e nas revistas semanais Veja e IstoÉ.
Vimos o Jornal Nacional colocar uma das autoras do material em posição humilhante de ter que se justificar por ter conseguido fazer uma transposição didática de um assunto já debatido há tempos pelos grandes nomes da Linguística do país – nossos mestres, aliás. O jornalista Clovis Rossi afirmou que a língua que ele julga correta é uma “evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras” e que os professores têm o baixo salário justificado por “preguiça de ensinar”. Uma semana depois, vimos Amauri Segalla e Bruna Cavalcanti narrarem um drama em que um aluno teria aprendido uma construção errada de sua língua, e afirmarem que o material “vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedentes“. Também esses dois últimos jornalistas tentam negar a voz
contrária aos seus julgamentos, dizendo que pouquíssimos foram os que se manifestaram, e que as ideias expressas no material podem ter sucesso somente entre alguns professores “mais moderninhos”. Já no Estado de São Paulo vimos um economista fazendo represálias brutas a esse material didático. Acreditamos que o senhor Sardenberg entenda muito sobre jornalismo e economia, porém fica nítida a fragilidade de suas concepções sobre ensino da língua. A mesma desinformação e irresponsabilidade revelou o cineasta Arnaldo Jabor, em seu violento comentário na rádio CBN.
Ficamos todos perplexos pela falta de informação desses jornalistas, pela inversão de realidade a que procederam, e, sobretudo, pelo preconceito que despejaram sem pudor sobre seus espectadores, ouvintes e leitores, alimentando uma visão reduzida ao senso comum equivocado quanto ao ensino da língua. A versão trazida pelos jornais sobre a defesa do “erro” em livros didáticos, e mais especificamente no livro Por uma vida melhor, é uma ofensa a todo trabalho desenvolvido pelos linguistas e educadores de nosso país no que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa.
A pergunta inquietante que tivemos foi: será que esses jornalistas ao menos se deram o trabalho de ler ou meramente consultar o referido livro didático antes de tornar públicas tão caluniosas opiniões? Sabemos que não. Pois, se o tivessem feito, veriam que tal livro de forma alguma defende o ato de falar “errado”, mas sim busca desmistificar a noção de erro, substituindo-a pela de adequação/inadequação. Isso porque, a Linguística, bem como qualquer outra ciência humana, não pode admitir a superioridade de uma expressão cultural sobre outra. Ao dizer que a população com baixo grau de escolaridade fala “errado”, o que está-se dizendo é que a expressão cultural da maior parte da população brasileira é errada, ou inferior à das classes dominantes. Isso não pode ser concebido, nem publicado deliberadamente como foi nos meios de comunicação. É esse ensinamento básico que o material propõe, didaticamente, aos alunos que participam da Educação de Jovens e Adultos. Mais apropriado, impossível. Paulo Freire ficaria orgulhoso. Os jornalistas, porém, condenam.
Sabemos que os veículos de comunicação possuem uma influência poderosa sobre a visão de mundo das pessoas, atuam como formadores de opinião, por isso consideramos um retrocesso estigmatizar certos usos da língua e, com isso, o trabalho de profissionais que, todos os dias, estão em sala de aula tentando ir além do que a mera repetição dos exercícios gramaticais mecânicos, chamando atenção para o caráter multifacetado e plural do português brasileiro e sua relação intrínseca com os mais diversos contextos sociais.
A preocupação dos senhores jornalistas, porém, ainda é comum. Na base de suas críticas aparecem, sobretudo, o medo da escola não cumprir com seu papel de ensinar a norma culta aos falantes. Entretanto, se tivessem lido o referido material, esse medo teria facilmente se esvaído. Como todo linguista contemporâneo, os autores deixam claro, na página 12, que “Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário“. Dessa forma, sem deixar de valorizar a norma escrita culta – necessária para atuar nas esferas profissional e cultural, e logo, determinante para a ascensão econômica e social de seus usuários, embora não suficiente – o material consegue promover o debate sobre a diversidade linguística brasileira. Esse feito, do ponto de vista de todos que produzimos e utilizamos materiais didáticos, é fundamental.
Sobre os conteúdos errôneos que foram publicados pelos jornais e revistas, foi possível ver que, após uma semana, as respostas dadas pelos educadores, estudiosos da linguagem e, sobretudo, da variação linguística, já foram bastante elucidativas para informar esses profissionais do jornalismo. Infelizmente alguns jornalistas não os leram. Mas ainda dá tempo de aprender com esses textos. Leiam as respostas de linguistas tais como Luis Carlos Cagliari, Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Sírio Possenti, e de educadores tais como Maria Alice Setubal e Maurício Ernica, entre outros, publicadas em diversas fontes, como elucidativas e representativas do que temos a dizer. Aliás, muito nos orgulha a paciência desses autores – foram verdadeiras aulas para alunos que parecem ter que começar do zero. Admirável foram essas respostas calmas, respeitosas e informativas, verdadeiras lições de Linguística, de Educação – e de atitude cidadã, diga-se de passagem – para “formadores de opinião” que, sem o domínio do assunto, resolveram palpitar, julgar e até incriminar práticas e as ideias solidamente construídas em pesquisas científicas sobre a língua ao longo de toda a vida acadêmica de vários intelectuais brasileiros respeitados, ideias essas que começam, aos poucos, a chegar à realidade das escolas.
Ao final de anos de luta para podermos virar professores, ao invés de vermos nossos pensadores, acadêmicos, e professores valorizados, vimos a humilhação violenta que eles sofreram. Vimos, com isso, a humilhação que a academia e que os estudos sérios e profundos podem sofrer pela mídia desavisada (ou maldosa). O poder da mídia foi assustador. Para os alunos mais dispersos, algumas concepções que levaram anos para serem construídas foram quebradas em instantes. Felizmente, esses são poucos. Para grande parte de nossos colegas estudantes de Letras o que aconteceu foi um descontentamento geral e uma descrença coletiva nos meios de comunicação.
A descrença na profissão de professor, que era a mais provável de ocorrer após tamanha violência e irresponsabilidade da mídia, essa não aconteceu – somente por conta daquele nosso motivo interno ao qual nos referimos antes. Nossa crença de que a educação é a solução de muitos problemas – como esse, por exemplo – e que é uma das profissões mais satisfatórias do mundo continua firme. Sabemos que vamos receber baixos salários, que nossa rotina será mais complicada do que a de muitos outros profissionais, e de todas as outras dificuldades que todos sabem que um professor enfrenta. O que não sabíamos é que não tínhamos o apoio da mídia, e que, pior que isso, ela se voltaria contra nós, dizendo que o baixo salário está justificado, e que não podemos reclamar porque não cumprimos nosso dever direito.
Gostaríamos de deixar claro que não, ensinar gramática tradicional não é difícil. Não temos preguiça disso. Facilmente podemos ler a respeito da questão da colocação pronominal, passar na lousa como os pronomes devem ser usados e dizer para o aluno que está errado dizer “me dá uma borracha”. Isso é muito simples de fazer. Tão simples que os senhores jornalistas, que não são professores, já corrigiram o material Por uma vida melhor sobre a questão do plural dos substantivos. Não precisa ser professor para fazer isso. Dizer o que está errado, aliás, é o que muitos fazem de melhor.
Difícil, sabemos, é ter professores formados para conseguir promover, simultaneamente, o debate e o ensino do uso dos diversos recursos linguísticos e expressivos do português brasileiro que sejam adequados às diferentes situações de comunicação e próprios dos inúmeros gêneros do discurso orais e escritos que utilizamos. Esse professor deve ter muito conhecimento sobre a linguagem e sobre a língua, nas suas dimensões linguísticas, textuais e discursivas, sobre o povo que a usa, sobre as diferentes regiões do nosso país, e sobre as relações intrínsecas entre linguagem e cultura.
Esse professor deve ter a cabeça aberta o suficiente para saber que nenhuma forma de usar a língua é “superior” a outra, mas que há situações que exigem uma aproximação maior da norma culta e outras em que isso não é necessário; que o “correto” não é falar apenas como paulistas e cariocas, usando o globês; que nenhum aluno pode sair da escola achando que fala “melhor” que outro, mas sim ciente da necessidade de escolher a forma mais adequada de usar a língua conforme exige a situação e, é claro, com o domínio da norma culta para as ocasiões em que ela é requerida. Esse professor tem que ter noções sobre identidade e alteridade, tem que valorizar o outro, a diferença, e respeitar o que conhece e o que não conhece.
Também esse professor tem que ter muito orgulho de ser brasileiro: é ele que vai dizer ao garoto, ao ensinar o uso adequado da língua nas situações formais e públicas de comunicação, que não é porque a mãe desse garoto não usa esse tipo de variedade lingüística, a norma culta, não conjuga os verbos, nem usa o plural de acordo com uma gramática pautada no português europeu, que ela é ignorante ou não sabe pensar. Ele vai dizer ao garoto que ele não precisa se envergonhar de sua mãe só porque aprendeu outras formas de usar o português na escola, e ela não. Ele vai ensinar o garoto a valorizar os falares regionais, e ser orgulhoso de sua família, de sua cultura, de sua região de origem, de seu país e das diferenças que existem dentro dele e, ao mesmo tempo, a ampliar, pelo domínio da norma culta, as suas possibilidades de participação na sociedade e na cultura letrada. O Brasil precisa justamente desse professor que esses jornalistas tanto incriminaram.
Formar um professor com esse potencial é o que fazem muitos dos intelectuais que foram ofendidos. Para eles, pedimos que esses jornalistas se desculpem. E os agradeçam. E, sobretudo, antes de os julgarem novamente, leiam suas publicações. Ironicamente, pedimos para a mídia se informar.
Nós somos a primeira turma a entrar no mercado de trabalho após esse triste ocorrido da imprensa. Somos muito conscientes da luta que temos pela frente e das possibilidades de mudança que nosso trabalho promove. Para isso, estudamos e trabalhamos duro durante anos. A nós, pedimos também que se desculpem. E esperamos que um dia possam nos agradecer.
Reafirmamos a necessidade de os veículos de comunicação respeitarem os nossos objetos de estudo e trabalho — a linguagem e o língua portuguesa usada no Brasil —, pois muitos estudantes e profissionais de outras áreas podem não perceber tamanha desinformação e manipulação irresponsável de informação, e podem vir a reproduzir tais concepções simplistas e equivocadas sobre a realidade da língua em uso, fomentando com isso preconceitos difíceis de serem extintos.
Sabemos que sozinhos os professores não mudam o mundo. Como disse a Professora Amanda Gurgel, em audiência pública no Rio Grande do Norte, não podemos salvar o país apenas com um giz e uma lousa. Precisamos de ajuda. Uma das maiores ajudas com as quais contamos é a dos jornalistas. Pedimos que procurem conhecer as teorias atuais da Educação, do ensino de língua portuguesa e da prática que vem sendo proposta cotidianamente no Brasil. Pedimos que leiam muito, informem-se. Visitem escolas públicas e particulares antes de se proporem a emitir opinião sobre o que deve ser feito lá. Promovam acima de tudo o debate de ideias e não procedam à condenação sumária de autores e obras que mal leram. Critiquem as assessorias internacionais que são contratadas reiteradamente. Incentivem o profissional da educação. E nunca mais tratem os professores como trataram dessa vez. O poder de vocês é muito grande – a responsabilidade para usá-lo deve ser também.
Alecsandro Diniz Garcia, Ana Amália Alves da Silva, Ana Lúcia Ferreira Alves, Anderson Mizael, Jeferson Cipriano de Araújo, Laerte Centini Neto, Larissa Arrais, Larissa C. Martins, Laura Baggio, Lívia Oyagi, Lucas Grosso, Maria Laura Gándara Junqueira Parreira, Maria Vitória Paula Munhoz, Nathalia Melati, Nayara Moreira Santos, Sabrina Alvarenga de Souza e Yuki Agari Jorgensen Ramos – formandos 2011 em Letras da PUC-SP, futuros professores de Língua Portuguesa e Língua Inglesa