sexta-feira, 10 de junho de 2011

Desfecho da Operação Satiagha - Uma vergonha

Retiro do blog de Luis Nassif a postagem abaixo que trata da conclusão dada por instância superior da Justica(?!) ao processo chamado de Operação Satiagaha. Simplesmente, ignoram o crime de lesa-pátria por “entenderem” que as provas obtidas o foram de maneira ilegal. Será que não verei triunfar a Justiça, em sua total acepção?
Vejamos, pois, o que é escrito a seguir.

Enviado por luisnassif, qui, 09/06/2011 - 18:49
Por Jotavê
A grande novidade nesse final melancólico do caso Satiagraha é o silêncio da grande imprensa. Mesmo nos blogs mais fortemente comprometidos com a impunidade, não se ouviu mais do que um murmúrio que tentava, de algum modo, redesenhar o passado, no estilo "eu bem que avisei". Mas ninguém se dispôs a rediscutir o assunto. Ou muito me engano, ou existe um mal-estar difuso na grande imprensa com esse desfecho, para o qual ela colaborou de modo decisivo. É preciso lembrar, neste momento, a coragem de todos aqueles que, no olho do furacão, não se calaram, enfrentando bravamente as próprias empresas em que trabalhavam - Mônica Bergamo, por exemplo, que pôs sua coluna a serviço da Justiça num momento em que seus empregadores secundavam os advogados de Daniel Dantas em editoriais. Houve outros. No fundo, esses bravos profissionais devem hoje sentir-se revoltados, como todos nós, mas também vitoriosos. O que pode significar esse silêncio agora senão vergonha daquilo que foi dito e feito no passado?
O que aconteceu nesse episódio foi muito algo muito simples. Criou-se o mito de um "ativismo político" na Polícia Federal, com ramificações na Justiça. Se Daniel Dantas não estava a salvo, quem mais dentro das elites brasileiras poderia sentir-se a salvo? A sensação (totalmente paranoica, e por isso mesmo completamente desconectada dos fatos) era de que o governo Lula finalmente teria encontrado um meio de dar vazão à sua ânsia de ruptura. A vingança contra a burguesia (???), não vindo pelas mãos de um Henrique Meirelles, viria pelo martelo de um Fausto de Sanctis e pelas algemas de um Protógenes Queiroz. Loucura completa, em estado bruto, disseminada entre jornalistas por quem estava mais próximo de Daniel Dantas, e tinha medo (este sim bastante real) de ser atingido pelos estilhaços. A tese pegou. Era preciso pôr um freio ao "ativismo" do Judiciário, ou a "revolução petista" iria pôr-se em marcha, capitaneada pro de Sanctis. 
Hoje, com a poeira já assentada, vemos a que tudo se resumia, em última instãncia - um delegado, na ânsia de levar a cabo uma operação policial sabotada por seus superiores, usa uma brecha efetivamente existente na lei, e chama agentes da Abin para ajudá-lo nas operações - todas, absolutamente todas devidamente AUTORIZADAS PELO JUDICIÁRIO. Foi em torno disso que o circo se armou. Foi com esse argumento pífio que a impunidade, mais uma vez, triunfou no Brasil. Sem o pano de fundo da paranóia, vemos agora essa gigantesca operação de salvamento reduzir-se àquilo que ela realmente é - uma chicana bem conduzida por advogados matreiros. Nada além disso. Nada que possa entusiasmar ninguém - antes muito pelo contrário. Nada de que alguém possa se orgulhar, enfim, com exceção daqueles que ficaram ao lado da verdade e do bom senso até o final. Até hoje, leio com uma certa reverência a coluna dos jornalistas que resistiram àquela alucinação coletiva. Posso concordar ou discordar de qualquer coisa que qualquer um deles diga, mas sei que se trata de uma pessoa honesta, disposta a honrar sua profissão. Com relação a outros, o sentimento é exatamente o inverso. Ou eu muito me engano, ou fiapos desse sentimento de aversão e nojo podem ser detectados, hoje, até mesmo naqueles que mais colaboraram para que os fatos tivessem o curso que tiveram.



terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre o Transporte de Massa do futuro de Salvador

Amigos, minhas postagens estão ocorrendo com freqüência muito espaçada no tempo, por razões alheias à minha vontade, além da falta de conteúdo que acredite mereça ser divulgado, comentado, mas o assunto que segue é, por demais interessante, principalmente para nós moradores de Salvador.
Do Blog de Luis Nassif, retirei uma entrevista da revista Gente&Mercado com o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo, que avalio como bem esclarecedora quanto aos projetos de mobilidade (transporte de massa) que querem impor-nos, com esta onda de Copa do Mundo. É BRT é VLT. Confesso que, até então, não tinha a menor noção do que seria mais interessante. A opinião do urbanista, leva-me a acreditar que o VLT, desde de que os trilhos sejam assentados em estruturas compatíveis, é um projeto de longo prazo, pois poderá ser transformado em Metrô, quando necessário. Vamos à entrevista e tirem suas conclusões.       

Do Gente & Mercado
Em entrevista exclusiva ao Gente&Mercado, o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo fala sobre o sistema de transporte ideal para Salvador, critica o BRT, que considera defasado, sem capacidade para atender a demanda da cidade, além de causar um grande impacto ambiental. Condena a mudança da estação rodoviária, proposta pelo governador Jaques Wagner, e fala sobre as alterações que querem impor ao PDDU.
G&M – O governo acaba de receber diversas propostas voltadas para a questão da mobilidade urbana de olho na Copa do Mundo. No seu entender, qual a melhor delas?
Paulo Ormindo de Azevedo - A premissa básica é a seguinte: este sistema que vai se implantar do aeroporto até a estação do metrô do Acesso Norte não vai servir para o turista da Copa do Mundo. Quem vem de uma viagem de nove ou dez horas de voo, pagou em torno de US$ 4 mil, não vai pegar o BRT ou o que for, para ir até uma estação de transbordo, que não tem elevador, e chegar na Lapa, que está perto do estádio. É muito mais simples pegar um táxi e ir para o hotel. E é isso que vai acontecer. Os hotéis, como em todo mundo, mandarão vans para pegar seus hóspedes. Então, não é por aí. Está se aproveitando o pretexto da Copa para se implantar um sistema de transporte que se supõe de massa, o que não é mal.
G&M – Na sua opinião, qual o sistema que Salvador precisa e deve ter?
POA – A cidade do Salvador duplicou de população a cada duas décadas nos últimos 50/60 anos. O grande argumento que se coloca em defesa do BRT é que ainda não há demanda para um metrô na direção do Litoral Norte. A questão é a seguinte: ou a gente planeja para 20 ou 30 anos ou então qualquer sistema que se implante vai estar caduco em pouquíssimo tempo. Veja o exemplo do aeroporto. Quer dizer, Salvador dentro de 20 anos deverá ter o duplo da população. Como há uma pequena tendência de desaceleração de crescimento, no máximo, em 25 anos, Salvador terá 6 milhões de habitantes. Uma cidade com essa população não pode prescindir de um sistema de transporte verdadeiramente de massa, o que em outras palavras significa metrô.
G&M – Qual a sua avaliação do BRT (Bus Rapid Transit)?
POA – O BRT, que é um ônibus articulado dentro de uma calha exclusiva, é um sistema na verdade de transporte mediano de tráfego. Ele foi inventado por Jaime Lerner, em Curitiba, há 40 anos, e foi aperfeiçoado na Colômbia com o Transmilênio. Acontece que a cidade de Bogotá é uma cidade plana, de traçado reticular. Mas este não é um sistema possível nas condições de traçado urbano e de topografia de Salvador. Ele pode ser colocado no trecho que vai do Aeroporto até o Iguatemi, via Paralela, porque temos canteiros centrais que permitem criar faixas de trafego local e expresso, mas a partir desse ponto não tem mais como seguir com esse sistema. Nas avenidas de vale é possível tirar uma pista de carro e fazer uma via exclusiva de ônibus, mas em fila indiana. Se um ônibus parar ou quebrar, tudo para. E tem mais, esses ônibus articulados não sobem rampa de mais de 6%.
G&M – E o VLT (Veículo Leve sobre Trilho)?
POA – O VLT, como o próprio nome diz, também não é um sistema de tráfego pesado. No fundo é um trenzinho menor, com três vagões e dois intermediários de articulação, com desempenho parecido ao do BRT, mas que leva algumas vantagens, como a de não exigir a impermeabilização do solo, isto é, usar asfalto. Na Europa toda existe esse modal de transporte correndo em cima de gramado, sobre trilhos. Além disso, não é poluente, não queima diesel. No caso do BRT na Paralela teremos que colocar quatro pistas no canteiro central e isso significa uma faixa enorme de asfalto, numa cidade que já vive inundada porque não tem superfície de absorção. E, por último, para mim decisivo, o VLT pode ser um sistema intermediário entre o que se quer implantar apressadamente para a Copa e a futura linha 2 do metrô (que supostamente sai da Lapa em direção ao Litoral Norte passando pela Paralela, Estrada do Coco). Se forem colocados trilhos com capacidade para suportar o peso de um metrô, dentro de 10 ou 15 anos pode-se substituir o VLT por um metrô, sem interromper praticamente o funcionamento do sistema . Instalando o BRT agora é praticamente impossível substituí-lo depois pelo metrô, porque isso implicaria na paralisação da cidade durante, na melhor hipótese, durante dois ou três anos. Ora, se a Parelela já não funciona a contento agora, imagine parar por esse tempo para se colocar trilhos, substituir os pontilhões etc. A cidade entraria num caos. O BRT é o barato que sai caro.
G&M – Agora se fala também no monotrilho. Seria um sistema viável?
POA – O aeromóvel é um tipo de monotrilho ou monorail. Foi inventado por um engenheiro de Porto Alegre e para efeito de experimentação deveria ter um quilômetro de extensão. Mas nem isso foi feito, só 600 metros. É um bondinho com dois vagões usado para demonstração quando chega alguma autoridade. Não funciona como transporte. É uma brincadeira, uma coisa mais para lazer. Uma desinformação completa das pessoas que estão fazendo essa proposta. Os únicos usos de monorails que se conhecem são dentro de aeroportos, ligando dois terminais, ou em parques de diversão. É um trem que corre em cima de uma viga de concreto, que não permite ter desvios. É um transporte de vai e vem ou em circulo. Então, eu me dispenso de conversar sobre o aeromóvel, porque acho que não tem nada que ver o transporte de massa de Salvador.
G&M – Mudando de assunto, existe uma intenção de realizar alguma alterações no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano). O que significa na prática isso?
POA – Querem fazer um PDDU para contemplar empreendimentos ligados à Copa, é basicamente para permitir fazer hotéis em torno do Dique, na Orla, o que hoje não é permitido. Os grupos hoteleiros dizem, e com certa razão, que temos uma capacidade hoteleira até certo ponto ociosa. Não serão 40 mil turistas – considerando que temos um estádio com capacidade para 45 mil lugares – que vão criar uma crise na hotelaria local. Porque esta mesma cidade recebe meio milhão de turistas durante o Carnaval. Ora, não há necessidade de novos empreendimentos hoteleiros, que só vão aumentar a ociosidade. O que é preciso fazer é reciclar, modernizar os hotéis que temos, que estão velhos, e, naturalmente, investir na qualidade do serviço. Além disso, Salvador é uma cidade marítima, pode-se arrendar navios que sirvam como hotéis. A Grécia fez os Jogos Olímpicos dessa forma.
G&M – Depois de alguma discussão, finalmente o Instituto de Gestão das águas e Climas (Ingá) e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) foram unificados. O que significou isso?
POA – Essa foi uma operação para tornar mais lubrificado o sistema de licenciamento ambiental. A questão principal é o desaparelhamento quase total do Estado de quadros técnicos para, pelo menos, julgar projetos. Essa discussão do sistema modal de transporte na RMS demonstra que não tem ninguém na esfera publica capaz de apontar uma solução bem fundamentada. O estado se transformou num grande balcão. A iniciativa privada, as construtoras, basicamente, trazem projetos que atendem fundamentalmente a seus interesses e oferecem ao Estado, que os compra sem maiores analises. Há uma perda completa de capacidade gestora do estado, que passou a ser uma instância puramente reativa às propostas da iniciativa privada, à pressões populares e aos acidentes ambientais. O estado perdeu a capacidade de antecipação, de planejamento do regional e do local.
G&M – O governador fala em transferir a estação rodoviária e o Detran para Simões Filho, alegando que isso ajudaria a melhorar a questão da mobilidade urbana. Qual a sua opinião?
POA – Em qualquer parte do mundo, a estação rodoviária como a ferroviária está no centro da cidade ou, na melhor das hipóteses, ligada a um eficiente sistema de transporte de massa. Você imagina o povo do interior descer no limite do município de Salvador e pegar um táxi, que vai custar mais que a passagem de ônibus ou então disputar no tapa, com mala e cuia na mão, um buzu? A lógica que reina é a do capital mobiliário, não o do bem estar da população. A rodoviária, como o Detran e o edifício do Desenbahia, estão num ponto que se tornou muito valorizado. Chegou-se a dizer, inclusive, que com esse dinheiro se poderia financiar o sistema de transporte de massa da Copa. Mas o que importa não é o turista é o soteropolitano.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

SOBRE A GUERRA CONTRA A EDIÇÃO DE UM LIVRO DIDÁTICO PELO MEC

Venho acompanhando com interesse a discussão (chamar o que vem acontecendo sobre o assunto de discussão não é bem apropriado, mas vamos lá) que se desenrola com, por um lado: a velha e carcomida, grande imprensa, com seus “letrados” colunistas e opinadores, sempre a serviço do que é mais retrógrado, do capital financeiro internacional e de ideologias que sempre tiveram como “deus” o capital, o lucro; do outro lado, lingüistas, pesquisadores da língua portuguesa, parte da opinião pública que não segue aquela velha imprensa e outros mais. Agora, com prazer, leio um desabafo de jovens professores da língua portuguesa contra o bombardeio a um livro que somente mostra a diferença entre certo e errado e entre adequado e inadequado no nosso linguajar. Conheçamos o que dizem os jovens em contraponto ao que disseram “celebridades” que não se ativeram a ler o livro por eles condenado, como já foram abertamente acusados, pois que se limitaram a criticar frases soltas do contexto geral do livro.
Segue o manifesto, extraído do Blog de Nassif.  

MANIFESTO DE PROFESSORES DE PORTUGUÊS, RECÉMFORMADOS


Enviado por luisnassif, dom, 29/05/2011 - 22:02
 Desinformação e desrespeito na mídia brasileira
Por alguma razão escondida dentro de cada um de nós que escrevemos esse texto tivemos como escolha profissional o ensino de língua (materna ou estrangeira). Por algum motivo desconhecido, resolvemos abraçar uma das profissões mais mal pagas do nosso país. Não quisemos nos tornar médicos, advogados ou jornalistas. Quisemos virar professores. E para fazê-lo, tivemos que estudar.
Estudar, para alguém que quer ensinar, tem uma dimensão profunda. Foi estudando que abandonamos muitas visões simplistas do mundo e muito dos nossos preconceitos.
Durante anos debatemos a condição da educação no Brasil; cotidianamente aprofundamo-nos sobre a realidade do país e sobre uma das expressões culturais mais íntimas de seus habitantes: a sua língua. Em várias dessas discussões utilizamos reportagens, notícias, ou fatos trazidos pelos jornais.
Crescemos ouvindo que jovem não lê jornal e que a cada dia o brasileiro lê menos. A julgar por nosso cotidiano, isso não é verdade. Tanto é que muitos de nós, já indignados com o tratamento dado pelo Jornal Nacional à questão do material Por uma vida melhor, perdemos o domingo ao, pela manhã, lermos as palavras de um dos mais respeitados jornalistas do país criticando, na Folha de S. Paulo, a valorização dada pelo material ao ensino das diferentes possibilidades do falar brasileiro. E ficamos ainda mais indignados durante a semana com tantas reportagens e artigos de opinião cheios de ideias equivocadas, ofensivas, violentas e irresponsáveis. Lemos textos assim também no Estado de São Paulo e nas revistas semanais Veja e IstoÉ.
Vimos o Jornal Nacional colocar uma das autoras do material em posição humilhante de ter que se justificar por ter conseguido fazer uma transposição didática de um assunto já debatido há tempos pelos grandes nomes da Linguística do país – nossos mestres, aliás. O jornalista Clovis Rossi afirmou que a língua que ele julga correta é uma “evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras” e que os professores têm o baixo salário justificado por “preguiça de ensinar”. Uma semana depois, vimos Amauri Segalla e Bruna Cavalcanti narrarem um drama em que um aluno teria aprendido uma construção errada de sua língua, e afirmarem que o material “vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedentes“. Também esses dois últimos jornalistas tentam negar a voz
contrária aos seus julgamentos, dizendo que pouquíssimos foram os que se manifestaram, e que as ideias expressas no material podem ter sucesso somente entre alguns professores “mais moderninhos”. Já no Estado de São Paulo vimos um economista fazendo represálias brutas a esse material didático. Acreditamos que o senhor Sardenberg entenda muito sobre jornalismo e economia, porém fica nítida a fragilidade de suas concepções sobre ensino da língua. A mesma desinformação e irresponsabilidade revelou o cineasta Arnaldo Jabor, em seu violento comentário na rádio CBN.
Ficamos todos perplexos pela falta de informação desses jornalistas, pela inversão de realidade a que procederam, e, sobretudo, pelo preconceito que despejaram sem pudor sobre seus espectadores, ouvintes e leitores, alimentando uma visão reduzida ao senso comum equivocado quanto ao ensino da língua. A versão trazida pelos jornais sobre a defesa do “erro” em livros didáticos, e mais especificamente no livro Por uma vida melhor, é uma ofensa a todo trabalho desenvolvido pelos linguistas e educadores de nosso país no que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa.
A pergunta inquietante que tivemos foi: será que esses jornalistas ao menos se deram o trabalho de ler ou meramente consultar o referido livro didático antes de tornar públicas tão caluniosas opiniões? Sabemos que não. Pois, se o tivessem feito, veriam que tal livro de forma alguma defende o ato de falar “errado”, mas sim busca desmistificar a noção de erro, substituindo-a pela de adequação/inadequação. Isso porque, a Linguística, bem como qualquer outra ciência humana, não pode admitir a superioridade de uma expressão cultural sobre outra. Ao dizer que a população com baixo grau de escolaridade fala “errado”, o que está-se dizendo é que a expressão cultural da maior parte da população brasileira é errada, ou inferior à das classes dominantes. Isso não pode ser concebido, nem publicado deliberadamente como foi nos meios de comunicação. É esse ensinamento básico que o material propõe, didaticamente, aos alunos que participam da Educação de Jovens e Adultos. Mais apropriado, impossível. Paulo Freire ficaria orgulhoso. Os jornalistas, porém, condenam.
Sabemos que os veículos de comunicação possuem uma influência poderosa sobre a visão de mundo das pessoas, atuam como formadores de opinião, por isso consideramos um retrocesso estigmatizar certos usos da língua e, com isso, o trabalho de profissionais que, todos os dias, estão em sala de aula tentando ir além do que a mera repetição dos exercícios gramaticais mecânicos, chamando atenção para o caráter multifacetado e plural do português brasileiro e sua relação intrínseca com os mais diversos contextos sociais.
A preocupação dos senhores jornalistas, porém, ainda é comum. Na base de suas críticas aparecem, sobretudo, o medo da escola não cumprir com seu papel de ensinar a norma culta aos falantes. Entretanto, se tivessem lido o referido material, esse medo teria facilmente se esvaído. Como todo linguista contemporâneo, os autores deixam claro, na página 12, que “Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário“. Dessa forma, sem deixar de valorizar a norma escrita culta – necessária para atuar nas esferas profissional e cultural, e logo, determinante para a ascensão econômica e social de seus usuários, embora não suficiente – o material consegue promover o debate sobre a diversidade linguística brasileira. Esse feito, do ponto de vista de todos que produzimos e utilizamos materiais didáticos, é fundamental.
Sobre os conteúdos errôneos que foram publicados pelos jornais e revistas, foi possível ver que, após uma semana, as respostas dadas pelos educadores, estudiosos da linguagem e, sobretudo, da variação linguística, já foram bastante elucidativas para informar esses profissionais do jornalismo. Infelizmente alguns jornalistas não os leram. Mas ainda dá tempo de aprender com esses textos. Leiam as respostas de linguistas tais como Luis Carlos Cagliari, Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Sírio Possenti, e de educadores tais como Maria Alice Setubal e Maurício Ernica, entre outros, publicadas em diversas fontes, como elucidativas e representativas do que temos a dizer. Aliás, muito nos orgulha a paciência desses autores – foram verdadeiras aulas para alunos que parecem ter que começar do zero. Admirável foram essas respostas calmas, respeitosas e informativas, verdadeiras lições de Linguística, de Educação – e de atitude cidadã, diga-se de passagem – para “formadores de opinião” que, sem o domínio do assunto, resolveram palpitar, julgar e até incriminar práticas e as ideias solidamente construídas em pesquisas científicas sobre a língua ao longo de toda a vida acadêmica de vários intelectuais brasileiros respeitados, ideias essas que começam, aos poucos, a chegar à realidade das escolas.
Ao final de anos de luta para podermos virar professores, ao invés de vermos nossos pensadores, acadêmicos, e professores valorizados, vimos a humilhação violenta que eles sofreram. Vimos, com isso, a humilhação que a academia e que os estudos sérios e profundos podem sofrer pela mídia desavisada (ou maldosa). O poder da mídia foi assustador. Para os alunos mais dispersos, algumas concepções que levaram anos para serem construídas foram quebradas em instantes. Felizmente, esses são poucos. Para grande parte de nossos colegas estudantes de Letras o que aconteceu foi um descontentamento geral e uma descrença coletiva nos meios de comunicação.
A descrença na profissão de professor, que era a mais provável de ocorrer após tamanha violência e irresponsabilidade da mídia, essa não aconteceu – somente por conta daquele nosso motivo interno ao qual nos referimos antes. Nossa crença de que a educação é a solução de muitos problemas – como esse, por exemplo – e que é uma das profissões mais satisfatórias do mundo continua firme. Sabemos que vamos receber baixos salários, que nossa rotina será mais complicada do que a de muitos outros profissionais, e de todas as outras dificuldades que todos sabem que um professor enfrenta. O que não sabíamos é que não tínhamos o apoio da mídia, e que, pior que isso, ela se voltaria contra nós, dizendo que o baixo salário está justificado, e que não podemos reclamar porque não cumprimos nosso dever direito.
Gostaríamos de deixar claro que não, ensinar gramática tradicional não é difícil. Não temos preguiça disso. Facilmente podemos ler a respeito da questão da colocação pronominal, passar na lousa como os pronomes devem ser usados e dizer para o aluno que está errado dizer “me dá uma borracha”. Isso é muito simples de fazer. Tão simples que os senhores jornalistas, que não são professores, já corrigiram o material Por uma vida melhor sobre a questão do plural dos substantivos. Não precisa ser professor para fazer isso. Dizer o que está errado, aliás, é o que muitos fazem de melhor.
Difícil, sabemos, é ter professores formados para conseguir promover, simultaneamente, o debate e o ensino do uso dos diversos recursos linguísticos e expressivos do português brasileiro que sejam adequados às diferentes situações de comunicação e próprios dos inúmeros gêneros do discurso orais e escritos que utilizamos. Esse professor deve ter muito conhecimento sobre a linguagem e sobre a língua, nas suas dimensões linguísticas, textuais e discursivas, sobre o povo que a usa, sobre as diferentes regiões do nosso país, e sobre as relações intrínsecas entre linguagem e cultura.
Esse professor deve ter a cabeça aberta o suficiente para saber que nenhuma forma de usar a língua é “superior” a outra, mas que há situações que exigem uma aproximação maior da norma culta e outras em que isso não é necessário; que o “correto” não é falar apenas como paulistas e cariocas, usando o globês; que nenhum aluno pode sair da escola achando que fala “melhor” que outro, mas sim ciente da necessidade de escolher a forma mais adequada de usar a língua conforme exige a situação e, é claro, com o domínio da norma culta para as ocasiões em que ela é requerida. Esse professor tem que ter noções sobre identidade e alteridade, tem que valorizar o outro, a diferença, e respeitar o que conhece e o que não conhece.
Também esse professor tem que ter muito orgulho de ser brasileiro: é ele que vai dizer ao garoto, ao ensinar o uso adequado da língua nas situações formais e públicas de comunicação, que não é porque a mãe desse garoto não usa esse tipo de variedade lingüística, a norma culta, não conjuga os verbos, nem usa o plural de acordo com uma gramática pautada no português europeu, que ela é ignorante ou não sabe pensar. Ele vai dizer ao garoto que ele não precisa se envergonhar de sua mãe só porque aprendeu outras formas de usar o português na escola, e ela não. Ele vai ensinar o garoto a valorizar os falares regionais, e ser orgulhoso de sua família, de sua cultura, de sua região de origem, de seu país e das diferenças que existem dentro dele e, ao mesmo tempo, a ampliar, pelo domínio da norma culta, as suas possibilidades de participação na sociedade e na cultura letrada. O Brasil precisa justamente desse professor que esses jornalistas tanto incriminaram.
Formar um professor com esse potencial é o que fazem muitos dos intelectuais que foram ofendidos. Para eles, pedimos que esses jornalistas se desculpem. E os agradeçam. E, sobretudo, antes de os julgarem novamente, leiam suas publicações. Ironicamente, pedimos para a mídia se informar.
Nós somos a primeira turma a entrar no mercado de trabalho após esse triste ocorrido da imprensa. Somos muito conscientes da luta que temos pela frente e das possibilidades de mudança que nosso trabalho promove. Para isso, estudamos e trabalhamos duro durante anos. A nós, pedimos também que se desculpem. E esperamos que um dia possam nos agradecer.
Reafirmamos a necessidade de os veículos de comunicação respeitarem os nossos objetos de estudo e trabalho — a linguagem e o língua portuguesa usada no Brasil —, pois muitos estudantes e profissionais de outras áreas podem não perceber tamanha desinformação e manipulação irresponsável de informação, e podem vir a reproduzir tais concepções simplistas e equivocadas sobre a realidade da língua em uso, fomentando com isso preconceitos difíceis de serem extintos.
Sabemos que sozinhos os professores não mudam o mundo. Como disse a Professora Amanda Gurgel, em audiência pública no Rio Grande do Norte, não podemos salvar o país apenas com um giz e uma lousa. Precisamos de ajuda. Uma das maiores ajudas com as quais contamos é a dos jornalistas. Pedimos que procurem conhecer as teorias atuais da Educação, do ensino de língua portuguesa e da prática que vem sendo proposta cotidianamente no Brasil. Pedimos que leiam muito, informem-se. Visitem escolas públicas e particulares antes de se proporem a emitir opinião sobre o que deve ser feito lá. Promovam acima de tudo o debate de ideias e não procedam à condenação sumária de autores e obras que mal leram. Critiquem as assessorias internacionais que são contratadas reiteradamente. Incentivem o profissional da educação. E nunca mais tratem os professores como trataram dessa vez. O poder de vocês é muito grande – a responsabilidade para usá-lo deve ser também.
Alecsandro Diniz Garcia, Ana Amália Alves da Silva, Ana Lúcia Ferreira Alves, Anderson Mizael, Jeferson Cipriano de Araújo, Laerte Centini Neto, Larissa Arrais, Larissa C. Martins, Laura Baggio, Lívia Oyagi, Lucas Grosso, Maria Laura Gándara Junqueira Parreira, Maria Vitória Paula Munhoz, Nathalia Melati, Nayara Moreira Santos, Sabrina Alvarenga de Souza e Yuki Agari Jorgensen Ramosformandos 2011 em Letras da PUC-SP, futuros professores de Língua Portuguesa e Língua Inglesa

sexta-feira, 20 de maio de 2011

AINDA OSAMA BIN LADEN

Assunto que já está deixado de lado pela grande imprensa, mas que ainda desperta certo interesse a quem se preocupa com a conjuntura internacional, (da qual fazemos parte e, de certo modo, a ela vulneráveis), especialmente pelo que faz, já fez e é capaz de fazer o grande império norte-americano, leva-me a destacar a postagem abaixo que reporta e, ao final, critica um ”breve resumo do documentário" exibido pelo Canal Discovery Channel, no dia 19 p. passado.
Não é de espantar qualquer um a maneira repleta de ufanismo com que aquele canal (logicamente americano) documenta a operação de extermínio de Osama Bin Laden, como se fora repetição daqueles velhos conhecidos enlatados americanos, em que o poderio americano, encarnado em super-heróis justicia aqueles que afrontam ou são supostos perigos iminentes para seu império. Conheçamos, pois, com detalhes algumas passagens desse “épico” filme.  
(extraído do blog de Luis Nassif)
Por Felipe Martins
O Canal Discovery Channel acabou de transmitir (19/05, 22h) "Bin Laden: Homem Morto". O documentário detalha a chamada "Operação Gerônimo", realizada pelo governo americano para assassinar Bin Laden, que foi executada pela Navy Seals Team 6, a unidade de elite altamente treinada da marinha.
 A seguir faço um breve resumo do documentário, e, ao final, uma crítica.
 - A casa é localizada seguindo um dos integrantes da Al-Qaeda. Após a suspeita, ela passa a ser monitorada permanentemente para confirmar se realmente se trata da casa de Bin Laden. São utilizados diversos recursos de alta tecnologia, como utilização de satélite espião, e de laser que capta as vibrações dos vidros das janelas da casa, para escutar os sons internos.
 - A decisão de execução da operação é decidida quando os assessores da Casa Branca calculam em 60% as chances de se tratar de Bin Laden (e se não fosse ele?). São consideradas 3 opções: ação conjunta com os militares paquistaneses, bombardeio, e invasão. A última foi a escolhida por Obama.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A MORTE DE OSAMA BIN LADEN

Olá, amigos, após um intervalo (para nossos comerciais, afinal estivemos no meu mês, mês do meu já senil nascimento), aliado, também, à quase falta de assunto para comentar – senão observemos o que foi tratado pela imprensa nesses recentes dias, de uma relevância maior (pelo menos assim considerada por ela a grande imprensa: um casamento imperial, com pompas medievais em pleno século XXI, e uma beatificação (também algo medieval) de um papa, somente mais popular do que os demais, estou retornando ao blog.
Desta feita, para abordar o mais recente fato jornalístico, que é o assassinato de Bin Laden.
Logicamente, que desejaria, como muitos, que fosse feita justiça em relação ao que, é presumivelmente, responsável direto pelos atos de terrorismo em todo o mundo e desejo a extinção completa desses atos, mas tenho cá com meus botões minhas reservas quanto ao que se diz do que foi feito e A maneira como foi feito, com relação ao seu extermínio.
A propósito, transcrevo da Carta Maior, a “reação diante da morte de Osama” de Noam Chomsky que é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT”- [Massachusetts Institute of Tecnology], portanto não é nenhum russo, iraniano, árabe, pelo contrário é filho de judeus, embora nascido nos EUA.   
Da Carta Maior
Noam Chomsky - Guernica Magazine
Fica cada vez mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.
Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.
O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Portanto, Obama simplesmente mentiu quando disse na sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaeda".
Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.
Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregue Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território i nvadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.
O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.
Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o en carniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.
Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórida, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.
O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.
É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".
Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O CAOS AÉREO DA TV GLOBO

Dias atrás, fiquei, de certa forma, aterrorizado com o que a TV GLOBO noticiara e comentara. Aproveitando um relatório do IPEA, fixa a idéia de que não teremos (nós como país) competência para dar as condições necessárias para a realização da Copa do Mundo,em 2014. Uma reportagem,  seguida de comentários apocalípticos, para o nosso futebol e para a competência brasileira. Para que entendamos que problemas há, não tem dúvida alguma, mas que podem muito bem ser solucionados em tempo hábil, (Vejam o caso da determinação de sete anos como prazo para execução de tudo que deve ser feito com relação a aeroportos. Prazo estabelecido em função de prazos obtidos em obras anteriores; isto é, histórico pregresso indica que obras levam 7 anos. E, importante, sem que a INFRAERO fosse ouvida), o que segue, obtido no blog dos amigos do Presidente Lula.     
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Ontem de manhã, o IPEA divulgou o estudo "Aeroportos no Brasil: investimentos recentes, perspectivas e preocupações".

No mesmo dia, a propaganda eleitoral do PSDB na TV mostrou um daqueles atores figurantes do movimento CANSEI, dizendo que o Brasil vai "passar vergonha" lá em 2014, "por causa dos aeroportos".

O Jornal Nacional da TV Globo foi na mesma linha demo-tucana, dando destaque ao relatório do IPEA, muito acima da importância que ele tem, e ignorando boa parte do que diz o próprio relatório favorável ao governo.

Vamos analisar por partes.

Relatório do IPEA precisa ser lido com reservas: contém erros e foi ignorado pela imprensa nos pontos favoráveis ao governo

O IPEA é órgão técnico e seus estudos devem ser técnicos para orientar políticas públicas, não é para bajular governos, por isso é natural que tenham críticas no sentido construtivo, que oriente e desperte o debate dentro do próprio governo.

Mas a questão deste relatório é que não é bom, nem do ponto de vista acadêmico, e precisa ser lido com ressalvas, enxergando ser apenas um estudo que acerta em alguns aspectos econômicos e de demanda, mas erra ao especular quanto a cronogramas de engenharia, assunto que, ou deveria ter tratado com profundidade ou deveria ter deixado de fora do estudo.

Não tem sentido falar que o histórico pregresso indica que obras levam 7 anos, em "média".

Média do passado não serve de referência para o quadro atual.

Para começar, é absurdo falar em média, comparando um período fora-do-normal em que existe uma força-tarefa preparatória para a Copa do Mundo e Olimpíadas, que não existia nos períodos em que a tal média foi apurada. A última Copa do Mundo no Brasil foi em 1950, não dá para comparar períodos tão distintos.

Não dá para comparar períodos em que o Brasil estava quebrado, sem condições de investir, com o período atual, em que as obras dos aeroportos tem verbas garantidas no PAC-2.

Não dá para comparar o período em que a capacidade da Infraero de investir era muito menor, com a situação atual, quando o movimento de passageiros cresceu de 71 milhões de passageiros em 2003 para 154 milhões em 2010, e receitas da Infraero também aumentaram com isso.

O relatório também recorre à média para dizer que licenças ambientais demoram 38 meses (mais de 3 anos) em setor de transporte (misturando na média, rodovias na Selva Amazônica com ampliação de Aeroportos urbanos).

Piora, ao ignorar que muitas obras em aeroportos apenas estão executando projetos que já existiam, e já estavam licenciados, como construção de nova pista já prevista. Portanto tem pouco valor prático este estudo, feito nestas bases.

O estudo também erra ao estimar, com base em projeções, a saturação do Aeroporto de Guarulhos e uma capacidade ociosa do Aeroporto de Viracopos em Campinas, quando ambos atendem a região metropolitana de São Paulo, e são infra-estruturas complementares, que permite remanejar vôos de um para o outro. Principalmente considerando que Viracopos terá uma estação do trem de alta velocidade ligando-o à capital.

O mesmo erro é cometido no Rio de Janeiro, ao apontar saturação do pequeno Aeroporto de Santos Dumont, e capacidade ociosa do Aeroporto Tom Jobim (Galeão). Além disso, o Santos Dumont, cuja maior demanda atual é vôos Rio-São Paulo, perderá passageiros para o trem-bala.

Mesmo com estas deficiências no estudo, o Jornal Nacional, a oposição e o resto da imprensa, deturparam seu real conteúdo.

Ignoraram estes trechos fundamentais:
"Deve-se ressaltar que este estudo considera que as obras em pistas, pátios e módulos provisórios nos aeroportos têm, ainda, tempo hábil para serem concluídas até o evento de 2014.

... a Infraero possui um plano de investimentos de R$ 1,4 bilhão ao ano (entre 2011 e 2014) para 13 aeroportos brasileiros, visando a Copa de 2014. Isso representa mais do triplo da média anual investida entre 2003 e 2010 pela empresa, que foi de R$ 430 milhões".

Técnico do IPEA refutou lobby pela privatização

Na entrevista concedida, Carlos Alvares da Silva Campos Neto, um dos autores do trabalho, refutou a idéia de que a privatização seria solução, em pergunta de jornalistas :

"Isso não é uma ação trivial. A participação da iniciativa privada (no setor aeroportuário) é uma alternativa viável, mas não terá resultados imediatos. Isso não deve ser computado como uma alternativa para 2014... O novo presidente da Infraero (Antonio Gustavo Matos do Vale) já disse que o processo de abertura de capital levaria em torno de três anos", afirmou.

A propaganda do PSDB em dobradinha com o Jornal Nacional

A coincidência da propaganda do PSDB, incita a imaginação sobre tucanos infiltrados no IPEA, mas se fosse assim, não haveria assuntos de maior apelo popular para o IPEA fazer um relatório?

No campo eleitoral, o horizonte recomendaria lidar com assuntos que alavanquem conquistas nas eleições municipais, no ano que vem. Assuntos como saúde, educação, transporte urbano, trânsito, moradia decente e segura, meio-ambiente, segurança pública e prevenção de drogas, tem mais apelo popular em uma campanha municipal do que transporte aéreo.

É difícil imaginar algum candidato a prefeito da oposição, mesmo de cidades sede da Copa, centrar sua campanha em cima de obras de Aeroportos que estarão em curso, gerando empregos, e serão perfeitamente viáveis para conclusão em 2014. Só conseguirá votos entre os assinantes da revista Veja, que já votam na oposição desde criancinha.

A oposição, se agarra no que tem para criticar, e testa o "caosaéreo" de novo. Talvez, como boa ave de rapina que é, jogue na loteria do mau-agouro, apostando em algum acidente aéreo que, estatisticamente, acontece de tempos em tempos em qualquer lugar do mundo, para procurar culpar o governo federal, como tivesse alguma relação.

O Jornal Nacional (JN), mostrou que a TV Globo, após uma relativa trégua depois da posse, volta ao ativismo oposicionista explícito, ao dar destaque ao relatório de um órgão que, normalmente, não merece destaque no telejornalismo da emissora. Quantos relatórios do IPEA foram noticiados no JN?

No dia anterior, o mesmo IPEA publicou um estudo sobre "Relações comerciais e de investimentos do Brasil com os demais países do BRICS", no semana em que a presidenta Dilma reuniu-se com os demais líderes destes países. Foi uma das principais notícias da semana. O JN da Globo não se interessou por esse relatório do IPEA, que não casava com os interesses da oposição.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O DIA QUE DUROU 21 ANOS

Pelo transcurso do aniversário do golpe militar perpetrado contra o governo de João Goulart, constitucionalmente eleito, vai ao ar a série, em três capítulos, “O Dia que durou 21anos”, pela TV Brasil (tvbrasil.org.br). O primeiro episódio foi ao ar ontem (dia 4) e uma sinopse é apresentada a seguir. Baseado, principalmente, em documentos, antes confidenciais, dos ex-presidentes John Kennedy e do seu sucessor Lyndon B. Johnson, revelam, de forma escancarada, o que muitos já sabiam sobre a capital importância do apoio norte-americano ao referido golpe militar e a submissão de militares e parte da sociedade civil do nosso país, aqueles mesmos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Vejamos, a síntese a seguir.
Os que viveram a ditadura militar brasileira, os que passaram por ela em brancas nuvens e os que nasceram depois que ela acabou. Todos podem conhecer melhor e refletir sobre esse período, a partir da nova série “O Dia que durou 21 anos”, que a TV Brasil exibe nos dias 4, 5 e 6 de abril, às 22 h.
Em clima de suspense e ação, o documentário apresenta, em três episódios de 26 minutos cada, os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil. Pela primeira vez na televisão, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como Top Secret, serão expostos ao público. Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte dessa série iconográfica, narrada pelo jornalista Flávio Tavares.
O mundo vivia a Guerra Fria quando os Estados Unidos começaram a arquitetar o golpe  para derrubar o governo de João Goulart. As primeiras ações surgem em 1962, pelo então presidente John Kennedy. Os fatos vão se descortinando, através de relatos de políticos, militares, historiadores, diplomatas e estudiosos dos dois países. Depois do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o texano Lyndon Johnson assume o governo e mantém a estratégia de remover Jango, apelido de Goulart. O temor de que o país se alinharia ao comunismo e influenciaria outros países da América Latina, contrariando assim os interesses dos Estados Unidos, reforçaram os movimentos pró-golpe.
A série mostra como os Estados Unidos agiram para planejar e criar as condições para o golpe da madrugada de 31 de março. E, depois, para sustentar e reconhecer o regime militar do governo do marechal Humberto Castelo Branco. Envergando uma roupa civil, ele assume o poder em 15 de abril. Castelo era chefe do Estado Maior do Exército de Jango.
O governo norte-americano estava preparado para intervir militarmente, mas não foi necessário, como ressaltam historiadores e militares. O general Ivan Cavalcanti Proença, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Do Brasil, duas autoridades americanas foram peças-chaves para bloquear as ações de Goulart e apoiar Castelo Branco: o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon; e  o general Vernon Walters, adido militar e que já conhecia Castelo Branco. As cartas e o áudio dos diálogos de Gordon com o primeiro escalão do governo americano são expostas. Entre os interlocutores, o presidente Lyndon Johnson, Dean Rusk (secretário de Estado), Robert McNamara (Defesa). Além de conversas telefônicas de Johnson com George Reedy Dean Rusk; Thomas Mann (Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos) e George Bundy, assessor de segurança nacional da Casa Branca, entre outros.
Foi uma das mais longas ditaduras da América Latina. O general Newton Cruz, que foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) e ex-comandante militar do Planalto, conclui: “A revolução era para arrumar a casa. Ninguém passa 20 anos para arrumar uma Casa”.
Em 1967, quem assume o Planalto é o general Costa e Silva, então ministro da Guerra de Castelo. Da linha dura, seu governo consolida a repressão. As conseqüências deste período da ditadura, seus meandros políticos e ideológicos estarão na tela. Mortes, torturas, assassinatos,  violação de direitos democráticos e prisões arbitrárias fazem parte desse período dramático da história.
O jornalista Flávio Tavares, participou da luta armada, foi preso, torturado e exilado político. Através da série, dirigida por seu filho Camilo Tavares, ele explora suas vivências e lembranças. E mais: abre uma nova oportunidade de reflexão sobre o passado.
O Dia que durou 21 anos é uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares. Roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo.
Primeiro Episódio:
As ações do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ainda no governo Kennedy, são expostas neste primeiro capítulo. O discurso do presidente João Goulart pregando reformas sociais torna-se uma ameaça e é interpretado pelos militares como uma provocação. Nos quartéis temia-se uma movimentação de esquerda e a adoção do comunismo, que poderia se espalhar por outros países latinos. Entrevistas e reportagens da CBS são reproduzidas, bem como diálogos entre Gordon e Kennedy.
O documentário expõe a efervescência da sociedade brasileira naquele período. Para evitar que Goulart chegasse forte às eleições de 1965, foi criado o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que teria dado cobertura às ações dos Estudos Unidos para derrubar João Goulart.
Segundo Episódio:
Cenas da morte de John Kennedy e a posse de Lyndon Johnson abrem este capítulo, dando sequência à estratégia dos Estados Unidos de impedir ao que o ex-presidente americano chamou de “um outro regime comunista no hemisfério ocidental”. “Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso”, diria Jonhson.
Imagens focam no discurso de Jango na Central do Brasil, em 13 de março de 1964,  que foi considerado uma provocação pelos arquitetos do golpe. Os americanos já preparavam o esquema, enviando suas forças militares para o “controle das massas”, como se refere um dos entrevistados. Paralelamente, articulações para levar Castelo Branco ao poder estavam sendo engendradas.
As forças americanas não precisaram entrar em campo. João Goulart pegou o avião, foi para Brasília e depois para o sul do país. Por que Jango não reagiu”? É uma questão posta na tela. O general Cavalcanti, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Os Estados Unidos estavam mobilizados para, em caso de resistência, fazer a intervenção militar pela costa e assim ajudar os militares.  As correspondências de Lincoln Gordon com o primeiro escalão da Casa Branca são mostradas ao público, explorando as ações secretas junto às Forças Armadas, a reação da imprensa e dos grupos católicos no Brasil. Os Estados Unidos reconhecem o novo governo e imagens da vitória e manifestações de rua entram em cenas.
Terceiro Episódio:
O cargo de presidente é declarado vago pelo presidente do Senado, Auro Moura de Andrade. O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, é empossado.
No dia 15 de abril, o chefe das Forças Armadas, marechal Castelo Branco, toma posse.
Castelo tinha relações amistosas com Vernon Walters, adido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Depois de suas conversas com Castelo, ele se ocupava em enviar telegramas para os Estados Unidos, relatando o teor da conversa.  Os textos dos telegramas são revelados no episódio.
O governo Castelo Branco recrudesce e dá início aos atos institucionais. O de número 2 extingue os partidos políticos e torna as eleições indiretas. E mais: prorroga o seu mandato. Em 1967, ele é substituído pelo general Costa e Silva, da chamada linha dura do Exército. O AI 5 é decretado no ano seguinte, e o Brasil entra no caos, “O AI5 foi uma revolução dentro da revolução”, declara o general Newton Cruz.
A repressão e a tortura dominavam o país. Militares e estudiosos falam desse período. O brigadeiro Rui Moreira Lima, da Força Aérea Brasileira, declara: “Eu conheci um coronel, filho de um general, que veio de um curso de tortura no Panamá. Ele chegou e disse: agora estou tinindo na tortura, pega aí um cara pra eu torturar”.
Os Estados Unidos continuam em campo e Lincoln Gordon pede para o governo fortalecer ao máximo o regime militar brasileiro. O orçamento da embaixada cresce, como registra o historiador Carlos Fico, da UFRJ, um dos entrevistados de Flávio Tavares