quarta-feira, 19 de março de 2014

AINDA SOBRE O GOLPE MILITAR DE MARÇO-ABRIL DE 1964

Ainda assustado e indignado com a iniciativa escancarada de incitação ao golpismo feito por um General da ativa em órgão porta-voz de militares, (sem que soubesse ter havido qualquer reação da parte da autoridade constituída responsável. Imaginemos se na vigência da ditadura, um militar qualquer, quanto mais uma alta patente, ousasse criticar o “regime”, ah, Lascava-se! Como muitos), dou continuidade à minha intenção de ficar atento e atenado para o que vem ocorrendo e poderá ocorrer nesses próximos dias que antecedem o aniversário do golpe militar de 1964 e para que possa repercutir manifestações que façam relembrar o que foi e quais as consequências para o país do referido golpe. Assim, transcrevo um artigo de Marcelo Rubens Paiva, escritor e filho de um deputado morto nos porões da “redentora”.
Sugerido por Claudio.SJ
Do Estadão
Marcelo Rubens Paiva
 “Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.
Diz que:
No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.
Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.
No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.
Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.
Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.
No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.
O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.
O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.
Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.
Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.
Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.
Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.
O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.
Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.
O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.

O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sete lições sobre o golpe de 64

Não bastassem as sucessivas demonstrações indisfarçáveis de afinação entre os golpistas de sempre e os neo-golpistas no sentido da desqualificação, a todo modo, do governo legitimamente eleito e constituído para a sua derrubada por renúncia (lembram?), suicídio (lembram?), ou mesmo simples TOMADA ("na tora") do comando da nação (lembram?), que de há muito acontecem, leio por agora que um GENERAL, um senhor General (parece-me que de Brigada), atentem bem! Escreveu um artigo, numa revista militar, convocando “os civis” a pedirem intervenção deles (militares), em plena véspera de aniversário da “redentora”, para que eles (os saudosos de 64) possam agir e fazer seu renascimento. Não se enganem, são forças que não podem ser desprezadas, esquecidas. Estão latentes e ávidas por fazer sair da aparente hibernação o monstro que aterorizou a nação por mais de duas décadas. E para abrir bem os olhos daqueles que disto necessitam, transcrevo a seguir texto do cientista político Antonio Lassance, extraído do Blog de Luís Nassif.

qua, 12/03/2014 - 09:46 - Atualizado em 12/03/2014 - 10:37
Sugerido por Webster Franklin
Da Carta Maior
Antonio Lassance
  
Há 50 anos, o Brasil foi capturado pela mais longa, mais cruel e mais tacanha ditadura de sua história.

Meio século é mais que suficiente tanto para aprendermos quanto para esquecermos muitas coisas.

É preciso escolher de que lado estamos diante dessas duas opções.

1ª. LIÇÃO: AQUELA FOI A PIOR DE TODAS AS DITADURAS

No período republicano, o Brasil teve duas ditaduras propriamente ditas. Além da de 1964, a de 1937, imposta por Getúlio Vargas e por ele apelidada de "Estado Novo".

A ditadura de Vargas durou oito anos (1937 a 1945). A ditadura que começou em 1964 durou 21 anos.

Vargas e seu regime fizeram prender, torturar e desaparecer muita gente, mas não na escala do que ocorreu a partir de 1964.

Os torturadores do Estado Novo eram cruéis. Mas nada se compara em intensidade e em profissionalismo sádico ao que se vê nos relatos colhidos pelo projeto "Brasil, nunca mais" ou, mais recentemente, pela Comissão da Verdade.

Em qualquer aspecto, a ditadura de 1964 não tem paralelo.

2ª. lição: QUALIFICAR A DITADURA SÓ COMO “MILITAR” ESCAMOTEIA O PAPEL DOS CIVIS

Foram os militares que deram o golpe, que indicaram os presidentes, que comandaram o aparato repressivo e deram as ordens de caçar e exterminar grupos de esquerda.

Mas a ditadura não teria se instalado não fosse o apoio civil e também a ajuda externa do governo Kennedy.

O golpismo não tinha só tanques e fuzis. Tinha partidos direitosos; veículos de imprensa agressivos; empresários com ódio de sindicatos; fazendeiros armados contra Ligas Camponesas, religiosos anticomunistas. Todos tão ou mais golpistas que os militares.

Sem os civis, os militares não iriam longe. A ditadura foi tão civil quanto militar. Tinha seu partido da ordem; sua imprensa dócil e colaboradora; seus empresários prediletos; seus cardeais a perdoar pecados.

3ª. LIÇÃO: NÃO HOUVE REVOLUÇÃO, E SIM REAÇÃO, GOLPE E DITADURA

Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979) disse a seu jornalista preferido e confidente, Elio Gaspari, em 1981:

"O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução".

Quase ninguém usa mais o eufemismo “revolução” para se referir à ditadura, à exceção de alguns remanescentes da velha guarda golpista, que provavelmente ainda dormem de botinas, e alguns  desavisados, como o presidenciável Aécio Neves, que recentemente cometeu a gafe de chamar a ditadura de “revolução” (foi durante o 57º Congresso Estadual de Municípios de São Paulo, em abril de 2013).

Questionado depois por um jornal, deu uma aula sobre o uso criterioso de conceitos: “Ditadura, revolução, como quiserem”.

A ditadura foi uma reação ao governo do presidente João Goulart e à sua proposta de reformas de base: reforma agrária, política e fiscal.

4ª. LIÇÃO: A CORRUPÇÃO PROSPEROU MUITO NA DITADURA

Ditaduras são regimes corruptos por excelência. Corrupção acobertada pelo autoritarismo, pela ausência de mecanismos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo.

A ditadura foi pródiga em escândalos de corrupção, como o da Capemi, justo a Caixa de Pecúlio dos Militares. As grandes obras, ditas faraônicas, eram o paraíso do superfaturamento.

Também ficaram célebres o caso Lutfalla (envolvendo o ex-governador Paulo Maluf, aliás, ele próprio uma criação da ditadura) e o escândalo da Mandioca.

5ª. LIÇÃO: A DITADURA ACABOU, MAS AINDA TEM MUITO ENTULHO AUTORITÁRIO POR AÍ

O Brasil ainda tem uma polícia militar que segue regulamentos criados pela ditadura.

A Polícia Civil de S. Paulo, em outubro de 2013, enquadrou na Lei de Segurança Nacional (LSN) duas pessoas presas durante protestos.

A tortura ainda é uma realidade presente, basta lembrar o caso Amarildo.

Os corredores do Congresso ainda mostram um desfile de filhotes da ditadura - deputados e senadores que foram da velha Arena (Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o regime).

6ª. LIÇÃO: BANALIZAR A DITADURA É ACENDER UMA VELA EM SUA HOMENAGEM

Há duas formas de se banalizar a ditadura. Uma é achar que ela não foi lá tão dura assim. A outra é chamar de ditadura a tudo o que se vê de errado pela frente.

O primeiro caso tem seu pior exemplo no uso do termo "ditabranda" no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009.

Para a Folha de S. Paulo, a última ditadura brasileira foi uma branda (“ditabranda”), se comparada à da Argentina e à chilena.

A ditadura brasileira de fato foi diferente da chilena e da argentina, mas nunca foi “branda”, como defende o jornal acusado de ter emprestado carros à Operação Bandeirantes, que caçava militantes de grupos de esquerda para serem presos e torturados.

Como disse a cientista política Maria Victoria Benevides, que infâmia é essa de chamar de brando um regime que prendeu, torturou, estuprou e assassinou?

A outra maneira de se banalizar a ditadura e de lhe render homenagens é não reconhecer as diferenças entre aquele regime e a atual democracia. Para alguns, qualquer coisa agora parece ditadura.

A proposta de lei antiterrorismo foi considerada uma recaída ditatorial do regime dos “comissários petistas” e mais dura que a LSN de 1969. Só que, para ser mais dura que a LSN de 1969, a proposta que tramita no Congresso deveria prever a prisão perpétua e a pena de morte.

O diplomata brasileiro que contrabandeou o senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil comparou as condições da embaixada do Brasil na Bolívia à do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a casa de tortura da ditadura.

Para se parecer com o DOI-CODI, a Embaixada brasileira em La Paz deveria estar aparelhada com pau de arara, latões para afogamento, cadeira do dragão (tipo de cadeira elétrica), palmatória etc.

Banalizar a ditadura é como acender uma vela de aniversário em sua homenagem.

7ª. LIÇÃO: JÁ PASSOU DA HORA DE PARAR COM AS HOMENAGENS OFICIAIS DE COMEMORAÇÃO DO GOLPE

Por muitos e muitos anos, os comandantes militares fizeram discursos no dia 31 de março em comemoração (isso mesmo) à “Revolução” de 1964.

A provocação oficial, em plena democracia, levou um cala-a-boca em 2011, primeiro ano da presidência Dilma. Neste mesmo ano também foi instituída a Comissão da Verdade.

A referência ao 31 de março foi inventada para evitar que a data de comemoração do golpe fosse o 1º. de abril – Dia da Mentira.

A justificativa é que, no dia 31, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, começou a movimentar suas tropas em direção ao Rio de Janeiro.

Se é assim, a Independência do Brasil doravante deve ser comemorada no dia 14 de agosto, que foi a data em que o príncipe D. Pedro montou em seu cavalo para se deslocar do Rio de Janeiro para as margens do Ipiranga, no estado de São Paulo.

A palavra golpe tem esse nome por indicar a deposição de um governante do poder. No dia 1º. de abril, João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, chegou a retornar para Brasília. Em seguida, foi para o Rio Grande do Sul e, depois, exilou-se no Uruguai  mas só em 4/4/1964. Que presidente é deposto e viaja para a capital um dia depois do golpe?

O Almanaque da Folha é um dos tantos que insistem na desinformação:
“31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar”. Entende-se. Afinal, trata-se do pessoal da ditabranda.

O que continua incompreensível é o livro “Os presidentes e a República”, editado pelo Arquivo Nacional, sob a chancela do Ministério da Justiça, trazer ainda a seguinte frase:

“Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu”.

De novo, o conto da Carochinha do 31 de março.

Ainda mais incompreensível é o livro colocar as juntas militares de 1930 e de 1969 na lista dos presidentes da República.

A lista (errada) é reproduzida na própria página da Presidência da República como informação sobre os presidentes do Brasil.

Nem os membros das juntas esperavam tanto. A junta governativa de 1930 assinava seus atos riscando a expressão “Presidente da República”. 

No caso da junta de 1969, o livro do Arquivo Nacional diz (p. 145) que o Ato Institucional nº. 12 (AI-12) "dava posse à junta militar" composta pelos ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ledo engano.

O AI-12, textualmente: “Confere aos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar as funções exercidas pelo Presidente da República, Marechal Arthur da Costa e Silva, enquanto durar sua enfermidade”. Oficialmente, o presidente continuava sendo Costa e Silva.

Há outro problema. Uma lei da física, o famoso princípio da impenetrabilidade da matéria, diz que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo – que dirá três corpos.

Não há como três chefes militares ocuparem o mesmo cargo de presidente da República. Que república no mundo tem três presidentes ao mesmo tempo?

O que os membros da Junta de 1969 fizeram foi exercer as funções do presidente, ou seja, tomar o controle do governo. O AI-14/1969 declarou o cargo oficialmente vago, quando a enfermidade de Costa e Silva mostrou-se irreversível.

Os três comandantes militares jamais imaginaram que um dia seriam listados em um capítulo à parte no panteão dos presidentes. A Junta ficaria certamente satisfeita com a homenagem honrosa e, definitivamente, imerecida.

Que história, afinal, estamos contando?

Uma história que ainda não faz sentido.

Uma história cujas lições ainda nos resta aprender.

(*) Antonio Lassance é cientista político. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

SEM NOME, SEM FIM, SEM COMEÇO.

As manifestações "deram um tempo", o STF continua quadrilhando os "mensaleiros", ao tempo tempo em que esquecem do mensalão do PSDB, da operação Satiaghara, do "Principe das Privatizações", da "Operação Banqueiro"...e eu naquela de proposital alheamento momentâneo, vou publicar um poema recém saído do "forno", leiam comigo por favor.


EU PRECISO ESCREVER PRA VOCÊ
NÃO SEI SE DÁ PRÁ FALAR
 É, MAS FALAR O QUÊ?
 ME PERGUNTAM, CADÊ VOCÊ?
FALAR... PRÁ QUE DIZER?
PRÁ QUE EXPLICAR?
VOCÊ TÁ LONGE, NÃO TÁ AQUI
”AQUI ONDE TUDO É ESCURO”,
LÁ FORA  NÃO “VEJO LAGARTOS”, MAS SERPENTE ME ESPREITA
A MESMO COISA SE FAZ E ACONTECE
OU DEIXA DE ACONTECER, DÁ NA MESMICE,
E VELHICE RIMA COM CRIANCICE
 E, ORA BOLAS, RELIGIÃO COM CRENDICE,
QUÃO PERTO, TÃO LONGE ESTÃO ESTES CICLOS.
É! O MUNDO DÁ VOLTA, VOLTA E MEIA
DO PONTO INICIAL RODA, VOLTEIA, É UM DIA.
É UM DIA E MEIO.
UM PINGO, MUITOS SOBRE NÓS CAEM
O LENÇOL. COBERTURA, NADA COBRE.
OS TALHERES NÃO SÃO DE AÇO, SÃO DE COBRE.
DO BARRO VIEMOS, DIZEM
E NO BARRO EU ESCARRO.
PARA CHORAR, NADA FALTA,
AS LÁGRIMAS TEIMAM, NÃO ESCORREM.
PRA ALEGRAR, SAMBO COM SAPATO
LÍNGUA DE JACARÉ, SABE COMO É QUE É ?
MUITOS SABEM, POUCOS NÃO,
TALVEZ NÃO SABE “O UM POR CENTO”, QUE NÃO CONHECE OS REIS. (leia réis)
DOS MILHÕES QUE CONHECEM, AO INVÉS.
SAPATO ALI ERA DE DOIS MIL REIS.
COM PREGO MENOS AINDA,
SATISFAZ MESMO ASSIM MEU EGO.
ARRE QUE RUIM!
QUERIA SER UM ANJO, UM QUERUBIM,
NEM REZA QUERO, EXCOMUNGADO!
“DEITA COMO UM JEGUE, LEVANTA COMO UM BURRO”
AI DE MIM! NADA SOU, O ÁTIMO ENFIM.
QUAL A DIFERENÇA ENTRE ÁTIMO E PÓ?
E SEMPRE PENSEI EM MAIS, PENA, OH!!!
POR VEZES, UMA VIVA ETERNIDADE,
 SERÁ QUE HÁ ETERNA VIDA?
NÃO SEI. APRENDI QUE NADA VIVE ALEM DO PERMITIDO,
COMO IR ALÉM DA IMORTALIDADE DAS COISAS,
E QUEM DEIXA OU PERMITE?
AH! CANSEI, DE PROCURAR,
DE NOVO, AI DE MIM! CANSADO ESTOU,
CANSADO, CANSADO DE TUDO, DO AMOR.
(ESCREVI CANSADO SEM O “N”, UM ATO FALHO?)
O CASAMENTO É A VIDA? SEI SIM, SEI NÃO. NADA SEI
PRÁ NADA DIZER, DE UM A CEM CONTEI.
MAS NÃO TEM NADA, NÃO,
OH! COMO VIVER É ÓTIMO!
PODERIA OTIMIZAR MAIS AINDA, MAS NÃO SOU CAPAZ,
QUEM INVENTOU A VIDA,
POR QUE NÃO INVENTOU A PAZ.
QUEM A VIDA INVENTOU
COM NADA MAIS SE PREOCUPOU.
A VIDA POR SE SI SÓ NÃO VIVE!
AH! A MORTE LHE ESPREITA,
SEI, PORQUE LÁ ESTIVE. SERÁ MESMO? E AQUI ESTOU.
DÚVIDAS, DÚVIDAS. NADA, PAPAI NOEL EXISTE, OH, OH, OH, OH..

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"O ALARME" é um ALERTA!

Eu cá com "meus botões", este cara é demais! Discorrendo, como sempre faço, pelos blogues “sujos”, sujos porque não conseguem se livrar do lixo imposto pela grande imprensa, quando no exercício da nobre função que é o de fazer contra ponto à massiva campanha de derrubada do regime legitimamente vigente.
Bem, então, discorrendo pelos blogues tais, encontro a transcrição do texto abaixo, de autoria de Fernando Veríssimo. Nosso querido escritor de uma forma inteligente aborda, ou melhor, escancara o processo de envenenamento (“essa raça predatória e assassina já tinha a capacidade técnica de invadir, e fatalmente envenenar, o Universo”) que se está a impor ao regime democrático aqui em vigor com a complacência, com a omissão e, até, com a ajuda de “forças” que se denominam progressistas, demo(ÊPA!)cratas,etc. Portanto, ATENÇÃO! “O alarme” é um alerta.

Quem viu o filme de Stanley Kubrick “2001 — Uma odisseia no espaço” se lembra do monólito, aquela pedra lisa encontrada por um astronauta na órbita de Júpiter, que se revela estar ali há milhões de anos como uma espécie de alarme.

Sua descoberta por terrenos significaria que essa raça predatória e assassina já tinha a capacidade técnica de invadir, e fatalmente envenenar, o Universo. O monólito era um aviso. Esta interpretação não fica clara no filme, mas o titulo do conto de Arthur C. Clarke no qual Kubrick e o próprio Clarke basearam seu roteiro é “O sentinela".

Haveria um momento na vida das pessoas ou das sociedades em que funcionaria um alarme parecido com o que alertou o Universo para a chegada dos temíveis humanos, no filme. Pode-se especular sobre qual seria esse momento para um judeu na Alemanha, nas primeiras manifestações do nazismo, por exemplo.

Seria a pregação racista do partido mesmo antes de assumir o poder? Seria o que já se sabia do pensamento de Hitler e outros teóricos do fascismo? Qual o exato instante em que este hipotético judeu se convenceu que era preciso fugir do holocausto que se aproximava?

Para muitos o aviso nunca veio, ou veio tarde. Muitos não acreditaram que o nazismo chegaria ao poder e depois aos seus excessos. E pagaram por não reconhecer o momento. Demorou algum tempo para que o resto do mundo se desse conta do que estava acontecendo na Alemanha nazista.

O fascismo foi visto como um bem-vindo antídoto para a ameaça comunista. Já havia perseguição a judeus e outras minorias no país e a companhia Ford continuava fazendo negócios com a Alemanha — e continuou a fazer negócios depois do começo da guerra. Henry Ford era um notório antissemita, mas os produtores de Hollywood que desencorajavam críticas ao regime de Hitler nos seus filmes para não perder o mercado alemão eram todos judeus. Nenhum reconheceu o momento.

Na falta de um sentinela para nos alertar que os bárbaros estão tomando conta, resta confiar no nosso instinto. Quando chegará o momento que nos convencerá que isto aqui não tem jeito mesmo, e a procurar uma saída? Será que o momento já veio e já foi, e nós não notamos? E sair pra onde? Pra dentro, para a alienação e a burrice induzida, ou para fora, com o euro caro desse jeito?

Luis Fernando Veríssimo é escritor.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

UMA CRÔNICA DOS ANOS SESSENTA

Alheando-me momentaneamente à atual conjuntura política, obrigado a uma pausa para reflexão diante dos últimos acontecimentos, especialmente do fato da morte do cinegrafista que cobria uma dessas manifestações que grassam em nossas cidades, publico a crônica a seguir que remonta aos saudosos, apesar de tudo, anos sessenta.   
A FESTA DE ANIVERSÁRIO DE CHARLES
Lá pelos idos dos anos sessenta, o bairro da Liberdade, assim como toda a Cidade era humanamente habitável. O “Duque de Caxias” (colégio) era desprovido do horrível muro que o faz parecer-se agora a um presídio. Ainda havia o abrigo dos bondes. Os bondes, ah! Os bondes ainda trafegavam, disputando espaço com os carros outros. Bem próximo ao abrigo ficava a escola e a residência de Charles. Naquele abrigo, um português, “seu” Manoel, explorava um ponto comercial. Charles era um dos integrantes da gangue, (nada a ver com as atuais "irmandades" do mal), na qual militavam Vadinho, alvaiade, negro que só ele, retinto!; Álvaro, karatê, apaixonado pela luta marcial; Manoel, diabo. Ah, este aprontava demais!; convinha-lhe muito bem o apelido. Miro, preto; Paulo, nagô, ou Paulo Capoeira, ou... eram tantos os apelidos; Bené, o bito, bito; Tampa (sabe? Não faço ideia de seu real nome). Este merece um capítulo à parte. Tampa foi o moleque mais completo que conheci em toda a minha vida. Tudo da molequeira, da malandragem ele fazia e fazia muito bem. Jogava bola. (O cara dava bico em bola de couro. Hoje em dia, não há mais necessidade de se usar a expressão adjetiva de couro. Até porque as bolas, ao que parece, não são mais feitas de couro e dava bico com o pé descalço! (como se dizia na época, na paleta). Jogava bola de gude, era tiro! Empinava arraia, cortava tudo quanto era arraia adversária. Jogava pauzinho, ganhava todas, dominó... Fumante inveterado; possuía, no entanto, um fôlego invejável, tanto que pegava areia com a boca no fundo do Cais de Dez Metros, em Água de Meninos. Após sofrer um acidente de carro nunca mais foi o mesmo, tendo falecido ainda muito jovem).
Dizia eu que a turma era formada por estes tantos e alguns outros, itinerantes, e Elísio, queró. Este é, talvez, o protagonista principal desta história.
Bem, Charles, filho de uma professora, branca, com um negro americano, ao que me parece, marinheiro em infindáveis viagens (nenhum de nós conheceu o dito cujo). Desta maneira, nosso amigo desfrutava de uma vida remediada: sua mãe, professora dirigia sua escola particular. Seu pai deveria enviar polpuda mesada. Ele próprio era funcionário municipal. Para dizer bem da sua condição, foi ele a primeira pessoa no bairro a possuir uma lambreta. Para quem não sabe, lambreta é o que hoje em dia se chama por bizz. Pois bem, peguei uma carona com ele para a cidade, prá nunca mais. Foi uma viagem de horror, da Liberdade até a “cidade” – cidade quer dizer, o Terreiro de Jesus, o hoje centro histórico, como já bem traduziu Gilberto Gil -, o cara ultrapassava tudo quanto era veículo que estivesse à sua frente, em desabalada carreira. Por causa disto, tomei pavor de garupa de motocicleta e assemelhados.
Mas, foi num dia de festa aniversário de Charles que tudo aconteceu. A gangue fazia-se presente e rolava o clima natural de festa. Mas a bebida já demorava a sair e alguns impacientes começaram a reclamar e a procurar maneira de contornar à privação de bebida e eis que alguém volta os olhos e depara-se com um litro de Bacardi. “Faz ombro arma” dele e convoca os demais a se dirigirem ao bar. Ali chegando, compra-se uma coca-cola, que é misturada ao líquido surrupiado: de pronto, vê-se uma mistura heterogênea – sabe, aquele característico aspecto de, por exemplo, água com óleo? - nos copos. Paulo, nagô, usando dos seus conhecimentos físico-químicos, sentenciou: “coca-cola não se dá com Bacardi”. E ai é que o nosso Elísio “queró” entra na história. Foi o primeiro, o mais afoito a emborcar o drink, cuja composição foi feita de coca-cola com querosene, que ingenuamente substituía o Bacardi. Dai em diante, Elísio passou a ser chamado de Elísio “queró”, uma corrompida alcunha, embora amigável originada da palavra querosene.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

MAIS UMA ASQUEROSA CAPA DE UMA REVISTA SEMANAL – que é um dos porta-vozes da Imprensa Golpista

É oportuno transcrever o texto de Rodrigo Vianna, extraído do blog de Luis Nassif.
A Veja é a barbárie. A Veja – se pudesse – prenderia o pescoço do povo brasileiro no poste. Mas não vai conseguir. Vai perder – de novo.”
por Rodrigo Vianna, em O Escrevinhador, sugerido por Júlio César Macedo Amorim
Nas redes sociais, tarde da noite de sexta-feira, jornalistas afinados com o tucanato e militantes da esquerda extremada se esparramavam em elogios à capa da “Veja”. Eu, que procuro manter distância sanitária da revista, aproximei-me da capa. E só consegui enxergar um gesto de oportunismo barato.
A “Veja” expõe a imagem – chocante, lamentável, triste – do rapaz preso pelo pescoço num poste na zona sul carioca, e aproveita a cena não para refletir sobre a tradição oligárquica brasileira, não para pensar sobre nossa história de 300 anos de escravidão, ou sobre nossa elite que reclama de pobres nos aviões e clama sempre pela resposta fácil do liberalismo de araque e da violência de capatazes. Não. “Veja” usa a foto terrível em mais uma tentativa para desgastar a imagem do Brasil; e também – que surpresa – para culpar o “governo”. Que governo? Ah, não é preciso ser muito esperto pra descobrir…
Emoldurando a foto triste, “Veja” berra em letras garrafais: “Civilização” e “Barbárie”. E depois acrescenta a legenda malandra, velhaca: “A volta dos justiceiros, criminosos impunes, colapso no transporte, caos aéreo. Onde está o Brasil equilibrado, rico em petróleo, educado e viável que só o governo enxerga”.
Certamente, o Brasil “equilibrado” não está nessa revista. “Veja” pratica o jornalismo da barbárie, um jornalismo que escreve “estado” assim – com “E” minúsculo – numa espécie de bravata liberal fora de época. “Veja” envenena o país todos os dias, com blogueiros  obtusos, asquerosos, que falam para um Brasil pretensamente senhorial, como se ainda estivéssemos antes da Revolução de 30.
Curioso, também, ver a “Veja” falar em “barbárie” e em “criminosos impunes”. Logo essa revista, tão próxima do bicheiro Cachoeira, pautada pelo bicheiro, amiga do bicheiro. A tabelinha com Cachoeira é – sim – um exemplo perfeito desse Brasil de criminosos impunes.
A “Veja”, que tenta pegar carona na imagem do rapaz preso pelo pescoço, pratica um jornalismo justiceiro – que invade quartos de hotel, “julga” e “condena” sem provas, inventa fatos, publica grampos sem áudio, alardeia contas no exterior e dólares em caixa de whisky. Tudo falso, falsificado. Um jornalismo que acredita em boimate e Gilmar Mendes.
A revista não tem moral para falar contra a “barbárie”, nem contra os “justiceiros”. E não tem, precisamente, por praticar um jornalismo que é a própria encarnação da barbárie, da falta de escrúpulos, um jornalismo justiceiro.
O Brasil do lulismo tem muitos problemas. Isso é evidente. Mas não venha a “Veja” querer apresentar a receita de “Civilização” ao Brasil. A receita da “Veja” é a mesma que os EUA oferecem à Ucrânia.
Está claro, por essa capa oportunista e velhaca, qual é a pauta dos setores que não aceitam o Brasil um pouquinho mais avançado dos últimos anos: é jogar tudo no “caos”, na “barbárie”, na insegurança. O Brasil é a jóia da coroa na América Latina em 2014. Tão importante quanto a Ucrânia no leste europeu, tão estratégico quanto a Síria no Oriente Médio.
Não sejamos ingênuos. A velha imprensa brasileira – que se reúne com embaixadores dos EUA às escondidas (isso desde 64, mas também em 2010 – como nos revelou o Wikileaks) – é parte decisiva no jogo pesado que veremos em 2014.
A oposição brasileira não tem programa. A economia não afunda como gostariam os urubulinos. Portanto, é preciso produzir a pauta do caos. Esse é o caldo de cultura em que podem prosperar candidaturas “justiceiras” que a “Veja”, os mervais e outros quetais estão prontos a lançar.
Para retomar o Estado brasileiro, eles pouco se lixam se o preço a pagar for a ebulição social. Aécio e Eduardo não darão conta dessa pauta da “ordem contra a barbárie”. A pauta do caos e do Brasil “inviável” (que está na capa da “Veja”) é boa para aventuras autoritárias – semelhantes ao janismo de 1960.
Quem pode encarnar esse figurino? Quem? O terreno vai sendo preparado…
Não creio que o povo brasileiro – equilibrado, sim! E que trabalha duro para construir um país “viável”, sim – não creio que a maioria de nosso povo embarque na aventura da “ordem contra a barbárie” – proposta pela revista. Mas a direita asquerosa e velhaca vai tentar.
O roteiro está claro. É preciso estar atento. E não cair na esparrela de acreditar que a “Veja” – de repente – converteu-se à “Civilização”.
A “Veja” é a barbárie. No jornalismo, na política, na vida do brasileiro comum.

A “Veja” – se pudesse – prenderia o pescoço do povo brasileiro no poste. Mas não vai conseguir. Vai perder – de novo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O BOMBARDEIO CONTINUA

Do blog de Luis Nassif, retiro uma análise feita por NOVAS CARTAS PERSAS e enviada por Júlio Cesar Macedo Amorim, onde desmascara com os próprios dados retirados do “bombardeio” o “Truque das barrinhas: mídia manipula infográficos para mostrar quadro pior do que a realidade”. Vê-se da comparação, usando-se, para tal, os dados fornecidos pelo jornal estrangeiro que a finalidade é juntar tudo (varios países com o Brasil) num só “balaio de gato”, não importando a grande diferença entre os valores das reservas internacionais e a necessidade de financiamento externo. Nos gráficos originais, os dados estão restritos a uma escala que “mascara” a tranquiladade que nossas reservas oferecem; além de nos furtar mais de 7 bilhões de dólares em seus devaneios. E atentem também para a análise da inflação. Eles querem inflação! Eles precisam da inflação e de seu terror para o aumento dos juros!
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Os “nervosinhos” estão mais nervosos que nunca. Afinal o mundo não acabou. Só resta, então, mostrar, ou melhor, desenhar (para que qualquer Homer entenda) que o mundo vai acabar. Quem sabe aí o mundo não acabe numa espiral de caos?
Ontem, o UOL estampou na capa de sua página principal uma matéria da Folha que mostrava a triste realidade de brasileiros que passaram a realizar “compras de mês”, aquelas que se faziam nos tempos de hiperinflação, quando os índices de preços chagavam a 14% (ou até 40%) AO MÊS.
Para provar que a hiperinflação já afeta os consumidores brasileiros, recolheu o depoimento de duas, isso mesmo, DUAS aposentadas que fazem sua compra de supermercado mensalmente. As pobres senhoras, vejam só, ainda têm que comprar peixe ou frango quando a carne está cara, ou, ainda, vejam só, têm que trocar a marca de óleo ou sal por outras mais baratas…
Como se isso não fosse feito desde quando mercado existe; como se isso não fosse feito também entre pessoas de menos renda nos países desenvolvidos.
Mas a evidência cabal foi apresentada pelo fantástico e fofinho infográfico. Para ilustrar a reportagem sobre as “compras de mês”, a reportagem compilou uma lista de 26 itens, dos quais 18 subiram acima da média de inflação (segundo o IPCA).

Só que entre os itens da lista de compras da Folha estão produtos como “passagem aérea”, “empregada doméstica” e “alimentação fora do domicílio”. Não sei em que supermercado o jornal faz a sua compra do mês, mas na lista da Folha NENHUM produto (ou grupo de produtos) pode ser encontrado nas gôndolas de supermercados:

Agora, a bola da vez é internacional. O jornal neoliberal britânico Financial Times decidiu abrir fogo contra os países emergentes. O Brasil é um de seus alvos favoritos. Na notícia de ontem publicada pelo FT, o periódico chegou à conclusão que não são apenas 5 os países emergentes “frágeis” (carinhosamente apelidados pelo jornal de “Fragile Five”). Agora a lista de emergentes frágeis, dos quais o investidor deve evitar a todo custo, é composta por 8 países.
Para demonstrar a “fragilidade” dos países, o FT enfatizou um (isso mesmo, apenas UM…) indicador de vulnerabilidade mostrando a relação entre reservas internacionais e necessidade de financiamento externo (veja a situação no Brasil em OITO indicadores de vulnerabilidade no post Mitos Econômicos Brasileiros #4: “2014 será o ano da ‘tempestade perfeita’ no Brasil”).
Pois bem, para ilustrar a fragilidade financeira dos países, o jornal também lançou mão de um bonito e fofinho infográfico, estampado em cores vivas no Twitter do jornal, em que os 8 países são comparados. A imagem era fundamental para dar sustância para a manchete bombástica (“‘Fragile Five’ falls short as tapering leaves more exposed”) de uma matéria vazia.
O problema começa com um dos dados: as reservas internacionais do Brasil fecharam o 3º trimestre de 2013 em US$ 376 bilhões e não US$ 369 bilhões. Mas esse não foi o maior problema do infográfico: as proporções das barras nos gráficos são sempre de tamanho semelhante, o que dá a impressão de que os oito países estão “no mesmo saco” – que é exatamente a tese do artigo.
No gráfico, os US $369 bilhões (sic) de reservas do Brasil são iguais aos US$ 45 bilhões da Hungria ou os US$ 53 bilhões da África do Sul. Sem essa imagem forte e fofinha, fica difícil de acreditar no malabarismo argumentativo do FT. Mas olhando com cuidado, vemos que o gráfico diz uma coisa (estão todos no mesmo saco); os números dizem outra (uns são laranjas, outros são maçãs)

Refazendo o gráfico (infelizmente sou incapaz de fazer um tão bonito e fofinho quanto o da equipe de ficção ilustradores do FT) de tal modo que os números digam a mesma coisa que ilustram as barras, temos o seguinte quadro:

As manipulações das reportagens da Folha e do FT se somam à famosa distorção do gráfico de inflação no Brasil medida pelo IPCA, no programa Conta Corrente, da GloboNews, publicado na sexta-feira (10). Apesar dos números corretos, a imagem (que vale mais do que mil palavras) é clara: mostra que a inflação é a maior dos últimos 5 anos, pelo menos.
Aqui, novamente, os números dizem uma coisa, a imagem, outra. Infelizmente não há mais registro do erro no site do programa. Mas milhares de pessoas espalharam a reprodução da imagem com o erro:

Depois do rebuliço que gerou na internet, o Conta Corrente apresentou uma errata, já na edição seguinte do programa (dia 13), e mostrou o gráfico com as proporções corretas. OK. Erros acontecem. Um jornalismo ético deve reconhecê-los, mostrá-los ao público e corrigi-los o mais rápido possível. Foi o que oConta Corrente fez.
Esse e outros erros (manipulações?) podem até ter sido sinceros e involuntários. Mas diante da linha editorial apocalíptica desses veículos, não deixa de ser sintomático. Pode ser um caso grave de “nervosite” ou um “wishful thinking”, não sei. Freud explica.

PS.: INFELIZMENTE NÃO PUDE ANEXAR OS GRÁFICOS, PELO QUE PEÇO DESCULPAS.