quarta-feira, 11 de maio de 2011

A MORTE DE OSAMA BIN LADEN

Olá, amigos, após um intervalo (para nossos comerciais, afinal estivemos no meu mês, mês do meu já senil nascimento), aliado, também, à quase falta de assunto para comentar – senão observemos o que foi tratado pela imprensa nesses recentes dias, de uma relevância maior (pelo menos assim considerada por ela a grande imprensa: um casamento imperial, com pompas medievais em pleno século XXI, e uma beatificação (também algo medieval) de um papa, somente mais popular do que os demais, estou retornando ao blog.
Desta feita, para abordar o mais recente fato jornalístico, que é o assassinato de Bin Laden.
Logicamente, que desejaria, como muitos, que fosse feita justiça em relação ao que, é presumivelmente, responsável direto pelos atos de terrorismo em todo o mundo e desejo a extinção completa desses atos, mas tenho cá com meus botões minhas reservas quanto ao que se diz do que foi feito e A maneira como foi feito, com relação ao seu extermínio.
A propósito, transcrevo da Carta Maior, a “reação diante da morte de Osama” de Noam Chomsky que é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT”- [Massachusetts Institute of Tecnology], portanto não é nenhum russo, iraniano, árabe, pelo contrário é filho de judeus, embora nascido nos EUA.   
Da Carta Maior
Noam Chomsky - Guernica Magazine
Fica cada vez mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.
Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.
O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Portanto, Obama simplesmente mentiu quando disse na sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaeda".
Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.
Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregue Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território i nvadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.
O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.
Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o en carniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.
Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórida, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.
O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.
É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".
Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O CAOS AÉREO DA TV GLOBO

Dias atrás, fiquei, de certa forma, aterrorizado com o que a TV GLOBO noticiara e comentara. Aproveitando um relatório do IPEA, fixa a idéia de que não teremos (nós como país) competência para dar as condições necessárias para a realização da Copa do Mundo,em 2014. Uma reportagem,  seguida de comentários apocalípticos, para o nosso futebol e para a competência brasileira. Para que entendamos que problemas há, não tem dúvida alguma, mas que podem muito bem ser solucionados em tempo hábil, (Vejam o caso da determinação de sete anos como prazo para execução de tudo que deve ser feito com relação a aeroportos. Prazo estabelecido em função de prazos obtidos em obras anteriores; isto é, histórico pregresso indica que obras levam 7 anos. E, importante, sem que a INFRAERO fosse ouvida), o que segue, obtido no blog dos amigos do Presidente Lula.     
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Ontem de manhã, o IPEA divulgou o estudo "Aeroportos no Brasil: investimentos recentes, perspectivas e preocupações".

No mesmo dia, a propaganda eleitoral do PSDB na TV mostrou um daqueles atores figurantes do movimento CANSEI, dizendo que o Brasil vai "passar vergonha" lá em 2014, "por causa dos aeroportos".

O Jornal Nacional da TV Globo foi na mesma linha demo-tucana, dando destaque ao relatório do IPEA, muito acima da importância que ele tem, e ignorando boa parte do que diz o próprio relatório favorável ao governo.

Vamos analisar por partes.

Relatório do IPEA precisa ser lido com reservas: contém erros e foi ignorado pela imprensa nos pontos favoráveis ao governo

O IPEA é órgão técnico e seus estudos devem ser técnicos para orientar políticas públicas, não é para bajular governos, por isso é natural que tenham críticas no sentido construtivo, que oriente e desperte o debate dentro do próprio governo.

Mas a questão deste relatório é que não é bom, nem do ponto de vista acadêmico, e precisa ser lido com ressalvas, enxergando ser apenas um estudo que acerta em alguns aspectos econômicos e de demanda, mas erra ao especular quanto a cronogramas de engenharia, assunto que, ou deveria ter tratado com profundidade ou deveria ter deixado de fora do estudo.

Não tem sentido falar que o histórico pregresso indica que obras levam 7 anos, em "média".

Média do passado não serve de referência para o quadro atual.

Para começar, é absurdo falar em média, comparando um período fora-do-normal em que existe uma força-tarefa preparatória para a Copa do Mundo e Olimpíadas, que não existia nos períodos em que a tal média foi apurada. A última Copa do Mundo no Brasil foi em 1950, não dá para comparar períodos tão distintos.

Não dá para comparar períodos em que o Brasil estava quebrado, sem condições de investir, com o período atual, em que as obras dos aeroportos tem verbas garantidas no PAC-2.

Não dá para comparar o período em que a capacidade da Infraero de investir era muito menor, com a situação atual, quando o movimento de passageiros cresceu de 71 milhões de passageiros em 2003 para 154 milhões em 2010, e receitas da Infraero também aumentaram com isso.

O relatório também recorre à média para dizer que licenças ambientais demoram 38 meses (mais de 3 anos) em setor de transporte (misturando na média, rodovias na Selva Amazônica com ampliação de Aeroportos urbanos).

Piora, ao ignorar que muitas obras em aeroportos apenas estão executando projetos que já existiam, e já estavam licenciados, como construção de nova pista já prevista. Portanto tem pouco valor prático este estudo, feito nestas bases.

O estudo também erra ao estimar, com base em projeções, a saturação do Aeroporto de Guarulhos e uma capacidade ociosa do Aeroporto de Viracopos em Campinas, quando ambos atendem a região metropolitana de São Paulo, e são infra-estruturas complementares, que permite remanejar vôos de um para o outro. Principalmente considerando que Viracopos terá uma estação do trem de alta velocidade ligando-o à capital.

O mesmo erro é cometido no Rio de Janeiro, ao apontar saturação do pequeno Aeroporto de Santos Dumont, e capacidade ociosa do Aeroporto Tom Jobim (Galeão). Além disso, o Santos Dumont, cuja maior demanda atual é vôos Rio-São Paulo, perderá passageiros para o trem-bala.

Mesmo com estas deficiências no estudo, o Jornal Nacional, a oposição e o resto da imprensa, deturparam seu real conteúdo.

Ignoraram estes trechos fundamentais:
"Deve-se ressaltar que este estudo considera que as obras em pistas, pátios e módulos provisórios nos aeroportos têm, ainda, tempo hábil para serem concluídas até o evento de 2014.

... a Infraero possui um plano de investimentos de R$ 1,4 bilhão ao ano (entre 2011 e 2014) para 13 aeroportos brasileiros, visando a Copa de 2014. Isso representa mais do triplo da média anual investida entre 2003 e 2010 pela empresa, que foi de R$ 430 milhões".

Técnico do IPEA refutou lobby pela privatização

Na entrevista concedida, Carlos Alvares da Silva Campos Neto, um dos autores do trabalho, refutou a idéia de que a privatização seria solução, em pergunta de jornalistas :

"Isso não é uma ação trivial. A participação da iniciativa privada (no setor aeroportuário) é uma alternativa viável, mas não terá resultados imediatos. Isso não deve ser computado como uma alternativa para 2014... O novo presidente da Infraero (Antonio Gustavo Matos do Vale) já disse que o processo de abertura de capital levaria em torno de três anos", afirmou.

A propaganda do PSDB em dobradinha com o Jornal Nacional

A coincidência da propaganda do PSDB, incita a imaginação sobre tucanos infiltrados no IPEA, mas se fosse assim, não haveria assuntos de maior apelo popular para o IPEA fazer um relatório?

No campo eleitoral, o horizonte recomendaria lidar com assuntos que alavanquem conquistas nas eleições municipais, no ano que vem. Assuntos como saúde, educação, transporte urbano, trânsito, moradia decente e segura, meio-ambiente, segurança pública e prevenção de drogas, tem mais apelo popular em uma campanha municipal do que transporte aéreo.

É difícil imaginar algum candidato a prefeito da oposição, mesmo de cidades sede da Copa, centrar sua campanha em cima de obras de Aeroportos que estarão em curso, gerando empregos, e serão perfeitamente viáveis para conclusão em 2014. Só conseguirá votos entre os assinantes da revista Veja, que já votam na oposição desde criancinha.

A oposição, se agarra no que tem para criticar, e testa o "caosaéreo" de novo. Talvez, como boa ave de rapina que é, jogue na loteria do mau-agouro, apostando em algum acidente aéreo que, estatisticamente, acontece de tempos em tempos em qualquer lugar do mundo, para procurar culpar o governo federal, como tivesse alguma relação.

O Jornal Nacional (JN), mostrou que a TV Globo, após uma relativa trégua depois da posse, volta ao ativismo oposicionista explícito, ao dar destaque ao relatório de um órgão que, normalmente, não merece destaque no telejornalismo da emissora. Quantos relatórios do IPEA foram noticiados no JN?

No dia anterior, o mesmo IPEA publicou um estudo sobre "Relações comerciais e de investimentos do Brasil com os demais países do BRICS", no semana em que a presidenta Dilma reuniu-se com os demais líderes destes países. Foi uma das principais notícias da semana. O JN da Globo não se interessou por esse relatório do IPEA, que não casava com os interesses da oposição.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O DIA QUE DUROU 21 ANOS

Pelo transcurso do aniversário do golpe militar perpetrado contra o governo de João Goulart, constitucionalmente eleito, vai ao ar a série, em três capítulos, “O Dia que durou 21anos”, pela TV Brasil (tvbrasil.org.br). O primeiro episódio foi ao ar ontem (dia 4) e uma sinopse é apresentada a seguir. Baseado, principalmente, em documentos, antes confidenciais, dos ex-presidentes John Kennedy e do seu sucessor Lyndon B. Johnson, revelam, de forma escancarada, o que muitos já sabiam sobre a capital importância do apoio norte-americano ao referido golpe militar e a submissão de militares e parte da sociedade civil do nosso país, aqueles mesmos que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Vejamos, a síntese a seguir.
Os que viveram a ditadura militar brasileira, os que passaram por ela em brancas nuvens e os que nasceram depois que ela acabou. Todos podem conhecer melhor e refletir sobre esse período, a partir da nova série “O Dia que durou 21 anos”, que a TV Brasil exibe nos dias 4, 5 e 6 de abril, às 22 h.
Em clima de suspense e ação, o documentário apresenta, em três episódios de 26 minutos cada, os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil. Pela primeira vez na televisão, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como Top Secret, serão expostos ao público. Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte dessa série iconográfica, narrada pelo jornalista Flávio Tavares.
O mundo vivia a Guerra Fria quando os Estados Unidos começaram a arquitetar o golpe  para derrubar o governo de João Goulart. As primeiras ações surgem em 1962, pelo então presidente John Kennedy. Os fatos vão se descortinando, através de relatos de políticos, militares, historiadores, diplomatas e estudiosos dos dois países. Depois do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o texano Lyndon Johnson assume o governo e mantém a estratégia de remover Jango, apelido de Goulart. O temor de que o país se alinharia ao comunismo e influenciaria outros países da América Latina, contrariando assim os interesses dos Estados Unidos, reforçaram os movimentos pró-golpe.
A série mostra como os Estados Unidos agiram para planejar e criar as condições para o golpe da madrugada de 31 de março. E, depois, para sustentar e reconhecer o regime militar do governo do marechal Humberto Castelo Branco. Envergando uma roupa civil, ele assume o poder em 15 de abril. Castelo era chefe do Estado Maior do Exército de Jango.
O governo norte-americano estava preparado para intervir militarmente, mas não foi necessário, como ressaltam historiadores e militares. O general Ivan Cavalcanti Proença, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Do Brasil, duas autoridades americanas foram peças-chaves para bloquear as ações de Goulart e apoiar Castelo Branco: o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon; e  o general Vernon Walters, adido militar e que já conhecia Castelo Branco. As cartas e o áudio dos diálogos de Gordon com o primeiro escalão do governo americano são expostas. Entre os interlocutores, o presidente Lyndon Johnson, Dean Rusk (secretário de Estado), Robert McNamara (Defesa). Além de conversas telefônicas de Johnson com George Reedy Dean Rusk; Thomas Mann (Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos) e George Bundy, assessor de segurança nacional da Casa Branca, entre outros.
Foi uma das mais longas ditaduras da América Latina. O general Newton Cruz, que foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) e ex-comandante militar do Planalto, conclui: “A revolução era para arrumar a casa. Ninguém passa 20 anos para arrumar uma Casa”.
Em 1967, quem assume o Planalto é o general Costa e Silva, então ministro da Guerra de Castelo. Da linha dura, seu governo consolida a repressão. As conseqüências deste período da ditadura, seus meandros políticos e ideológicos estarão na tela. Mortes, torturas, assassinatos,  violação de direitos democráticos e prisões arbitrárias fazem parte desse período dramático da história.
O jornalista Flávio Tavares, participou da luta armada, foi preso, torturado e exilado político. Através da série, dirigida por seu filho Camilo Tavares, ele explora suas vivências e lembranças. E mais: abre uma nova oportunidade de reflexão sobre o passado.
O Dia que durou 21 anos é uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares. Roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo.
Primeiro Episódio:
As ações do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ainda no governo Kennedy, são expostas neste primeiro capítulo. O discurso do presidente João Goulart pregando reformas sociais torna-se uma ameaça e é interpretado pelos militares como uma provocação. Nos quartéis temia-se uma movimentação de esquerda e a adoção do comunismo, que poderia se espalhar por outros países latinos. Entrevistas e reportagens da CBS são reproduzidas, bem como diálogos entre Gordon e Kennedy.
O documentário expõe a efervescência da sociedade brasileira naquele período. Para evitar que Goulart chegasse forte às eleições de 1965, foi criado o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que teria dado cobertura às ações dos Estudos Unidos para derrubar João Goulart.
Segundo Episódio:
Cenas da morte de John Kennedy e a posse de Lyndon Johnson abrem este capítulo, dando sequência à estratégia dos Estados Unidos de impedir ao que o ex-presidente americano chamou de “um outro regime comunista no hemisfério ocidental”. “Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso”, diria Jonhson.
Imagens focam no discurso de Jango na Central do Brasil, em 13 de março de 1964,  que foi considerado uma provocação pelos arquitetos do golpe. Os americanos já preparavam o esquema, enviando suas forças militares para o “controle das massas”, como se refere um dos entrevistados. Paralelamente, articulações para levar Castelo Branco ao poder estavam sendo engendradas.
As forças americanas não precisaram entrar em campo. João Goulart pegou o avião, foi para Brasília e depois para o sul do país. Por que Jango não reagiu”? É uma questão posta na tela. O general Cavalcanti, oficial da guarda presidencial, resume: “Lamento que foi um golpe fácil demais. Ninguém assumiu o comando revolucionário”.
Os Estados Unidos estavam mobilizados para, em caso de resistência, fazer a intervenção militar pela costa e assim ajudar os militares.  As correspondências de Lincoln Gordon com o primeiro escalão da Casa Branca são mostradas ao público, explorando as ações secretas junto às Forças Armadas, a reação da imprensa e dos grupos católicos no Brasil. Os Estados Unidos reconhecem o novo governo e imagens da vitória e manifestações de rua entram em cenas.
Terceiro Episódio:
O cargo de presidente é declarado vago pelo presidente do Senado, Auro Moura de Andrade. O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, é empossado.
No dia 15 de abril, o chefe das Forças Armadas, marechal Castelo Branco, toma posse.
Castelo tinha relações amistosas com Vernon Walters, adido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Depois de suas conversas com Castelo, ele se ocupava em enviar telegramas para os Estados Unidos, relatando o teor da conversa.  Os textos dos telegramas são revelados no episódio.
O governo Castelo Branco recrudesce e dá início aos atos institucionais. O de número 2 extingue os partidos políticos e torna as eleições indiretas. E mais: prorroga o seu mandato. Em 1967, ele é substituído pelo general Costa e Silva, da chamada linha dura do Exército. O AI 5 é decretado no ano seguinte, e o Brasil entra no caos, “O AI5 foi uma revolução dentro da revolução”, declara o general Newton Cruz.
A repressão e a tortura dominavam o país. Militares e estudiosos falam desse período. O brigadeiro Rui Moreira Lima, da Força Aérea Brasileira, declara: “Eu conheci um coronel, filho de um general, que veio de um curso de tortura no Panamá. Ele chegou e disse: agora estou tinindo na tortura, pega aí um cara pra eu torturar”.
Os Estados Unidos continuam em campo e Lincoln Gordon pede para o governo fortalecer ao máximo o regime militar brasileiro. O orçamento da embaixada cresce, como registra o historiador Carlos Fico, da UFRJ, um dos entrevistados de Flávio Tavares

quinta-feira, 31 de março de 2011

LULA É "DOUTOR HONORIS CAUSA" DE COIMBRA

O TÍTULO DE “DOUTOR HONORIS CAUSA” CONCEDIDO A LULA POR UMA DAS MAIS FAMOSAS UNIVERSIDADES DO MUNDO

Meus amigos,
Eu evito, de todo modo, tratar de política, dessa política partidária-eleitoral, cotidianamente veiculada e exercida pelos órgãos da imprensa, pois não quero fazer daqui um espaço para tais discussões, mas o que vai a seguir, obtido no blog de Luis Nassif, é demais e não poderia deixar passar em branco. Parte de um certo político, fracassado, (não conseguiu eleger-se), do DEM e da Bahia. Numa manifestação de completo ressentimento, o Sr. Aleluia, eu não deveria nem citá-lo, dirige-se ao reitor da Universidade para protestar contra  a concessão do título de “doutor honoris causa”. Que lástima!
nassif, não bastasse o bolsonaro veja só a petulância desse politico derrotado.
http://www.conversaafiada.com.br/cultura/2011/03/31/politico-derrotado-na-bahia-corta-o-pulso-com-lula-em-coimbra/

Stanley Burburinho oferece ao amigo navegante a seguinte informação, obtida numa unidade de pronto socorro: um homem alto, de uns 60 anos presumivelmente, bem vestido (mas com o hábito de tirar os sapatos no avião), de voz alta e uma certa arrogância cortou os pulsos de forma severa:
Aleluia do DEM envia carta ao reitor de Coimbra contestando título de Doutor a Lula
“CARTA ABERTA AO PROF.JOÃO GABRIEL SILVA,
MAGNÍFICO REITOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
José Carlos Aleluia, professor universitário, Membro da Comissão Executiva do Democratas e Presidente da Fundação Liberdade e Cidadania
Na condição de professor universitário venho perante Vossa Excelência manifestar a minha perplexidade — e porque não dizê-lo–, indignação, diante da concessão do título de doutor honoris causa, pela instituição que ora Vossa Excelência representa, ao ex-Presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.
Tomando como referência o significado que tem, para nós brasileiros, a Universidade de Coimbra, entendo que a iniciativa destoa aberta e completamente de toda a sua tradição. Aprendemos que as personalidades que lideraram o processo da Independência e que assumiram os destinos do novo país –a começar do Patriarca, José Bonifácio– formaram seu espírito na Universidade de Coimbra. Aplaudimos com entusiasmo a concessão daquele título a ilustres representantes da contemporânea cultura brasileira, a exemplo do saudoso Miguel Reale. Em eventuais excursões a Portugal, todo membro da comunidade acadêmica brasileira sente-se no dever de conhecer a instituição que consideramos parte integrante de nossa história.
A concessão do mencionado título contraria frontalmente toda a idéia que nós fizemos da Universidade de Coimbra pelo fato, sobejamente conhecido, de que o ex-Presidente sempre se vangloriou de não haver freqüentado qualquer curso. Insistentemente, perante a nossa juventude, buscou inculcar a noção de que o sucesso pessoal independe de qualquer esforço no sentido de aprimorar o conhecimento. E, sobretudo, por uma administração desastrosa em matéria educacional.
http://www.josecarlosaleluia.com.br/website/?a=11&cod=38212
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NESTE ESPAÇO ESTARIA UMA FIGURA QUE NÃO FOI RECUPERADA)

Em 2002, havia 43 universidade.
Hoje são 57 universidades federais.
O governo Lula foi o que mais fez pela educação superior e bateu um recorde do governo Kubitschek, que criou dez universidades federais.
O Farol de Alexandria não pôs no lugar um único tijolo numa única universidade.
Seu Ministro, Paulo Renato, o Rei da Privatização, especializou-se em fortalecer as universidades privadas.
O Di Gênio é fã do Paulo Renato.
Sobre as escolas técnicas.
Com o Nunca Dantes, se investiu mais em educação profissional e básica também: superou o governo Itamar, que construiu 27 unidades de escolas técnicas.
No governo Lula, foram 214 novas unidades, dez vezes mais que o recorde

sexta-feira, 25 de março de 2011

UMA EMPREGADA DOMÉSTICA NO TST

Todos esses tipos de exemplos me comovem e me criam a obrigação de divulgá-los. Atenção, muita atenção para a história que se segue. Uma moça de origem rural, (interior do Estado de Goiás), foi para uma cidade maior a fim de estudar, até contra a vontade do pai. Lá, para custear seus estudos, teve que trabalhar como empregada doméstica. Estudou, formou-se, militou na advocacia trabalhista e hoje é ministra do Tribunal Superior do Trabalho. É, portanto, exemplo de perseverança, desprendimento, de intrepidez frente às enormes dificuldades para se romperem os malignos grilhões que prendem e separam classes sócio-econômicas e que criam injustiça social aqui e acolá.
Vejamos, a história, extraída do Blog de Luis Nassif.
24/03/2011. Nova ministra do TST traz experiência de movimentos sociais
Ao tomar posse na tarde de hoje (24/3) no Tribunal Superior do Trabalho (TST), a ministra Delaíde Alves Miranda Arantes passa a fazer parte do Tribunal Superior com o maior número de mulheres em sua composição. Com trajetória combativa, acredita que os 30 anos de militância como advogada na seara trabalhista e a participação em movimentos sociais serão importantes ferramentas para o exercício da magistratura. Sua história de vida inclui o trabalho como empregada doméstica para custeio dos estudos, e uma firme disposição de se entregar à prestação jurisdicional com a mesma garra, e felicidade, com que se entregou a todas as atividades que realizou em sua vida. Confira a entrevista realizada com mais nova integrante do órgão de cúpula da Justiça do Trabalho. 
A senhora poderia descrever como um programa de incentivo a jovens da zona rural ajudou-a a ampliar suas perspectivas?
Foi uma experiência muito interessante. Eu tinha 13 para 14 anos, e meu pai tinha uma avaliação de que não poderia levar os filhos para a escola, para estudarem. Somos nove irmãos, e ele já se preparava para colocar os filhos na zona rural mesmo. Aí surgiu um programa estadual, o 4E, que apresentava palestras, mostrava os direitos das pessoas, ensinava os valores dos nutrientes. Era um programa multidisciplinar, e nós começamos a participar. Havia um incentivo muito grande dos extensionistas, que eram os líderes, para que nosso pai nos levasse para estudar.
Quando eu tinha 14 anos, aconteceu um congresso no Rio de Janeiro, e o prefeito da cidade teve que intervir porque meu pai não queria me deixar ir de jeito nenhum. Eu não conhecia a capital do meu estado (Goiás), imagina ir ao Rio de Janeiro. O congresso foi no Colégio Batista da Tijuca, no Rio de Janeiro, com representantes de 14 países e 21 estados do Brasil. E eu lá, uma moradora da zona rural, com 14 anos de idade, no palanque, fazendo discurso. A única coisa que eu defendia naquela época era que deveria ter uma faculdade no meio rural.
Tudo isso incentivou papai a mudar para a cidade, Pontalina, para que pudéssemos estudar. 
Foi dessa época sua experiência como empregada doméstica?
Cidade pequena tem poucas oportunidades de trabalho. Trabalhei como doméstica em duas ocasiões: em Pontalina, por ocasião da minha mudança, e depois, em Goiânia, pelo mesma razão, que era custear meus estudos. 
Qual a expectativa da senhora na véspera de assumir o cargo de ministra do Tribunal Superior do Trabalho?
Eu considero que estou no TST por aquilo que é o objetivo do quinto constitucional: a experiência do campo, a experiência da advocacia, a experiência de ter trabalhado como doméstica, de ter morado no meio rural. Eu não trago a experiência somente da advogada trabalhista, mas de tudo o que vivenciei. 
Existe algum tema dentro do TST que a senhora considere mais relevante, que a atraia mais?
Eu considero o papel do TST junto à sociedade muito relevante, não tenho uma preferência específica por tema. Sinto-me honrada por fazer parte do órgão máximo da Justiça do Trabalho. Estou me esforçando para que a Justiça do Trabalho se torne cada vez mais célere e que o TST se aproxime cada vez mais da sociedade. 
Como o TST pode contribuir hoje com a modernização das relações de trabalho e as novas tecnologias?
O direito é dinâmico. A Justiça do Trabalho lida com o direito do trabalho e com o direito processual do trabalho. O julgador atua a partir da compreensão de que o direito e a sociedade são muito dinâmicos. Quanto aos mecanismos modernos, é preciso que observem as garantias fundamentais, o direito mínimo a ser assegurado ao trabalhador. 
A senhora se considera militante na causa feminista?
Na verdade, há um limite tênue entre as nossas causas e a causa feminista. Sou vice-presidente da Associação Brasileira das Mulheres da Carreira Jurídica e também faço parte do Conselho Estadual da Mulher, em Goiânia. 
A senhora acha que a representatividade da mulher nos órgãos de cúpula é ainda pequena?
O TST é hoje o Tribunal Superior com o maior número de mulheres na sua composição. Somos seis. Essa representação vem crescendo, embora ainda seja incipiente. Tem, inclusive, uma campanha da Secretaria Nacional da Mulher que se intitula: “Mais Mulher no Poder”. Eu assumo está bandeira. Mas as mulheres não desistem nunca (risos).
  


quarta-feira, 16 de março de 2011

A Publicidade da Cerveja

Sempre me intrigou o fato da permissividade da sociedade em geral para com a maciça e massificante publicidade de cerveja. Quando, a exemplo de cigarros, (permitida somente à alta noite), quer a arte (?) publicitária relacionar o consumo de cerveja com saúde, juventude, beleza, poder de sedução, talento, especialmente, para esportes... É aquela profusão do lindo, amarelo ouro, líquido a exalar-se "redondamente" para "todos por uma e uma para todos". Sempre me intrigou o fato pela razão de essas "artes publicitárias" terem o seu encerramento com uma hipócrita frase: beba com moderação, (de uma forma bem discreta, quase inaudível) como se quisesse, se quisesse, repito, negar toda aquela apologia ao consumo desenfreado que a mensagem encerra. Esclarecendo, de antemão, que nada tenho de abstêmio, portanto, nada de rabugice com relação à cerveja. Este meu comentário visa introduzir a divulgação do que segue, pois concordo plenamente com o parlamentar que quer restringir propaganda de cerveja.

Por raquel
12/03/2011 - 07h00
Do Congresso em Foco
Deputado quer restringir propaganda de cerveja
Para Paulo Pimenta, aumento do número de acidentes fatais de trânsito durante o carnaval está diretamente relacionado com o consumo de bebida alcoólica. Daí, para ele, a necessidade de reduzir anúncios. Paulo Pimenta proporá restrição de propaganda de cerveja como forma de diminuir acidentes de trânsito
O número de mortes no trânsito em rodovias federais no Brasil aumentou em 47,9% neste carnaval se comparado ao mesmo período no ano passado.  Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, 213 pessoas morreram no trânsito e 4.165 acidentes foram registrados.  Os altos índices de morte nas estradas, todos os anos, revelam que o Brasil não tem conseguido avançar na redução de acidentes no trânsito. E o que fazer para reduzir essas tragédias?
O álcool é considerado um dos maiores vilões do trânsito. Uma solução apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para diminuir o número de vítimas nas estradas é reduzir o marketing de bebidas alcoólicas. Restringir propagandas de bebidas na TV e outras mídias é, segundo a organização, uma estratégia eficaz para combater os efeitos nocivos causados pelo incentivo ao consumo de bebidas.
Nesse sentido, na próxima semana, será protocolado na Câmara um projeto de lei para restringir a publicidade de cerveja e chope no Brasil. A proposta – que deve enfrentar um forte resistência por parte da indústria do setor e do mercado publicitário – propõe incluir na Lei 9.294/96 (que dispõe sobre restrições à propaganda de cigarros e bebidas como cachaça, vodka e uísque) restrições para propagandas de bebidas com teor alcoólico inferior a 0,5 graus.
“A restrição da publicidade de bebidas alcoólicas é a medida mais eficaz apontada pela OMS para reduzir o índice de mortalidade de jovens no trânsito. No Brasil, 75% dos acidentes fatais de trânsito estão associados ao uso de álcool. Hoje, 85% do mercado de bebidas no Brasil é a cerveja. Não tem porque não restringir a propaganda de cerveja”, afirmou o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), autor da proposta que será apresentada na próxima semana.
As cervejas têm, em sua maioria, teor alcoólico em torno de 5%. Se aprovada, a proposta, entre outras coisas, proibirá a propaganda de cerveja nas emissoras de rádio e televisão no horário das 6h às 21h. O projeto também obriga que sejam publicadas junto com a divulgação do projeto advertências sobre o consumo abusivo de cerveja.
Veja as restrições previstas na Lei 9.294/96
De acordo com a Constituição, em seu art. 22, inciso 29, somente o Congresso pode impor restrições ou legislar sobre a publicidade. O art. 220 da mesma norma estabelece que compete à lei federal estabelecer meios legais à pessoa e à família para que possam se defender de programas e propagandas que possam ser nocivos à saúde. O artigo estabelece ainda que a propaganda comercial de tabaco e bebidas alcoólicas está sujeita a restrições legais.
Segundo Pimenta, tramitam na Câmara cerca de 40 projetos que dispõem sobre restrição de propagandas de bebidas alcoólicas. Entre eles, o PL 2.733/2008, de autoria do Executivo, que tramita apensado ao PL 4.846/1994. A proposta, que tem texto semelhante ao do projeto de Paulo Pimenta, está parada no Congresso há quase três anos. “Precisa de uma decisão do colégio de líderes e colocar o tema na ordem do dia. Tem que ter essa decisão política. Para isso precisa ter pressão”, defendeu Pimenta.
Crônica da morte anunciada
Na tribuna da Câmara nesta semana, Pimenta criticou a posição da mídia que, ao analisar a violência no trânsito, não estabelece conexão com a publicidade de bebidas alcoólicas. “Mostrei, por exemplo, o editorial de um jornal, que falava que a violência nas estradas é tragédia nacional, e na mesma página tinha uma propaganda de cerveja e uma propaganda de carro. Exatamente a combinação principal responsável pelo aumento no número de morte no trânsito. É uma crônica da morte anunciada”, criticou.
Segundo a OMS, por ano, cerca de 2,2 milhões de mortes prematuras ocorrem por causa do uso de álcool. De acordo com o estudo da organização, a redução do impacto do marketing, sobretudo entre os jovens e adolescentes, reduz o uso nocivo do álcool. O organismo internacional  argumenta que “o álcool se comercializa mediante técnicas publicitárias e de promoção cada vez mais sofisticadas, que vinculam, por exemplo, marcas de álcool a atividades desportivas e culturais”.
“Essa orientação da OMS foi assinada por 193 países, sendo que o Brasil foi signatário. Não há como o Congresso ignorar essa medida”, diz Pimenta. O parlamentar relembra que, em 1996, quando foi votada a lei para restringir a publicidade do cigarro, uma forte pressão da indústria da cerveja alterou o artigo da lei, mantendo restrição para propagandas apenas para bebidas com teor alcoólico acima de 13 graus Gay Lussac (unidade de medida que quantifica o nível de álcool na bebida).
Em 2003, uma nova tentativa de incluir na legislação brasileira restrições à propaganda de cerveja também foi feita. Na época, artistas, atores de TV, esportistas, cantores e outros representantes da sociedade ocuparam o Salão Verde da Câmara para pressionar contra a medida. O setor da publicidade e a indústria da cerveja consideram que medidas para regularem anúncios de bebidas alcoólicas “ferem a liberdade de expressão”.

terça-feira, 15 de março de 2011

Curvemo-nos a Uma Pequena Nação Africana

De um minúsculo país do continente vem um exemplo mais que edificante e logo de um continente arrazado por toda a sorte de infortúnios: guerras, dominação pelas potências européias, escravidão, fome, miséria, subnutrição, aids e outras doenças, é a notícia que segue abaixo e que, realmente, é de se louvar com todas as honras o malauíno (será que é assim seu gentílico?) William Kamkwamba, rapaz paupérrimo, quase um auto-didata, de 22 anos, que soube usar seu gênio para tirar sua família da miséria com uma invenção e que se predispõe a continuar estudando para retornar ao seu país e melhorar a vidas dos seus conterrâneos. É exemplo indubitável de que o intelecto desenvolvido não é exclusividade dos concentradores da renda, dos dominadores, das elites. Fico realmente emocionado em saber que há pessoas deste quilate, pessoas que somente confirmam a inexistência de superioridade entre raças. Segue a reportagem. Ah!, ia esquecendo o material foi obtido no blog de Luis Nassif e uma explicação: na entrevista, William fala em fazendeiro, ou assim traduziram, acho eu, querendo dizer agricultor.

Da Revista Galileu
Com dois livros de física elementar, um monte de lixo e a energia eólica, jovem abastece lâmpadas e celulares em sua vila no interior da África
FORÇA AÉREA: William Kamkwamba mostra a instalação que carrega celulares e acende luzes em Malauí, na África
Escondido entre Zâmbia,Tanzânia e Moçambique, o Malauí é um país ruralcom15 milhões de habitantes. A três horas de carro da capital Lilongwe, a vila de Wimbe vê um garoto de 14 anos juntando entulho e madeira perto de casa. Até aí, novidade nenhuma para os moradores. A aparente brincadeira fica séria quando, dois meses depois, o menino ergue uma torre de cinco metros de altura. Roda de bicicleta, peças de trator e canos de plástico se conectam no alto da estrutura e, de repente, o vento gira as pás. Ele conecta um fio, e uma lâmpada é acesa. O menino acaba de criar eletricidade.
O menino e a importância de suas descobertas cresceram. William Kamkwamba, agora com 22 anos, já foi convidado para talk shows, deu palestras no Fórum Econômico Mundial, tem site oficial, uma autobiografia - The Boy Who Harnessed the Wind (O Menino que Domou o Vento, ainda inédito no Brasil) - e um documentário a caminho. O pontapé de tamanho sucesso se deve a uma junção de miséria, dedicação, senso de oportunidade e uma oferta generosa de lixo.

EM TERMOS DE GERAÇÃO e consumo de energia elétrica, o Malauí é o 138º país do mundo

Uma seca terrível no ano 2000 deixou grande parte da população do Malauí em situação desesperadora. Com as colheitas reduzidas drasticamente, as pessoas começaram a passar fome. "Meus familiares e vizinhos foram forçados a cavar o chão pra achar raízes, cascas de banana ou qualquer outra coisa pra forrar o estômago", diz Kamkwamba. A miséria o impediu de continuar na escola, que exigia a taxa anual de US$ 80. Se seguisse a lógica que vitima muitos rapazes na mesma situação, o destino dele estava definido: "Se você não está na escola, vai virar um fazendeiro. E um fazendeiro não controla a própria vida; ele depende do sol e da chuva, do preço da semente e do fertilizante", diz Kamkwamba.
Para escapar dessa sentença, começou a frequentar uma biblioteca comunitária a 2 km de sua casa. No meio de três estantes com livros doados pelo Reino Unido, EUA, Zâmbia e Zimbábue, Kamkwamba encontrou obras de ciências. Em particular, duas de física. A primeira explicava como funcionam motores e geradores. "Eu não entendia inglês muito bem, então associava palavras e imagens e aprendi física básica." O outro livro se chamava Usando Energia, tinha moinhos na capa e afirmava que eles podiam bombear água e gerar eletricidade. "Bombear um poço significava irrigar, e meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos."
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/1,,EDG87250-8489,00.htmL
ENTREVISTA
Conversamos com William Kamkwamba, o menino africano que construiu um moinho com lixo e dois livros de física
 * Conte-me um pouco sobre você, William. Quando você nasceu, onde foi, como é sua família?
Nasci em 5 de agosto de 1987 em Dowa, no Malauí. Moro com seis irmãs, meu pai e minha mãe. Em uma família de garotas, você pode imaginar os problemas por que passei. Na escola, os garotos sempre implicavam comigo porque eu não tinha um irmão mais velho que me protegesse. De qualquer jeito, sobrevivi.
* Como é sua vida na vila onde mora, como são as condições de água, eletricidade...?
Moro na vila de Wimbe. É um lugar pequeno com uma grande estrada empoeirada e algumas lojas. Chamamos de Centro de Comércio. Há o barbeiro, o soldador, vários armazéns que vendem roupas e uma loja Farmer’s World, onde meu pai compra milho para plantar e fertilizante. Seguindo essa estrada, há a minha vizinhança, Masitala. A cidade grande mais próxima é Kasungu, com muitos habitantes, um grande supermercado e várias lojas. Para chegar até lá, tem que ir de carona, espremido por uma hora na caçamba de um caminhão. Só 2% da população rural do Malauí tem eletricidade e isso é um grande problema. E antes de eu conseguir perfurar um poço e providenciar água limpa para minha família, não havia água corrente por quase 100 km.
* Em 2000, o Malauí passou por uma seca terrível. Foi por isso que você teve de deixar a escola em 2002?
Sim. Essa seca fez faltar alimento em todo o país. Ninguém conseguia plantar o suficiente para comer. As pessoas começaram a passar fome. Muitos moradores aqui perto de Wimbe morreram de inanição. Causou a morte de mais de 10 mil malauianos. Meus vizinhos e minha família fomos forçados a cavar o solo para achar raízes e cascas de banana, qualquer coisa para forrar o estômago. A taxa para minha escola era 80 dólares por ano. Por causa da situação, meu pai não conseguia pagar, tive que para de estudar com 14 anos.
* Como você se sentiu por estar fora da escola?
Era bem ruim. Se você não está estudando, quer dizer que vai ser fazendeiro. Eles não controlam a própria vida; dependem do sol, da chuva, do preço das sementes e do fertilizante. Quando saí da escola, olhei meu pai, aqueles campos ressecados e vi o resto de minha vida. Era um futuro que não podia aceitar.
* Foi aí que você começou a frequentar uma biblioteca perto da sua casa?
Sim. Era um lugar bem pequeno dentro de minha escola primária, a uns dois km de casa. Eu geralmente caminhava, ou ia de bicicleta. A biblioteca tinha três estantes cheias de livros doados pelos EUA, Reino Unido, Zâmbia e Zimbábue. Fui com a esperança de estudar por conta própria, para ficar no mesmo nível dos amigos que continuaram na escola. Comecei a ler livros de ciência, e isso mudou minha vida.
* Você construiu um moinho de vento a partir das explicações de um livro, sem nunca ter visto um. Como foi isso, e para que você queria um moinho?
No livro, “Explaining Physics”, entendi como funcionavam motores e geradores. Não lia inglês muito bem. Usei diagramas e fotos para associar as palavras, e assim aprender física básica. O outro livro que li chamava-se “Using energy”, tinha uma foto de um moinho de vento na capa. Dizia que moinhos podem bombear água e gerar eletricidade. Meu pai poderia irrigar a plantação, aumentar a colheita e nós nunca mais passaríamos fome! Por isso decidi construir um moinho. Não havia instruções, mas sabia que se um homem havia construído no livro, eu também conseguiria.
* Como você fez para arranjar as peças? Quanto tempo levou?
Fui a um ferro-velho perto de casa e encontrei vários pedaços de metal e uns canos de plástico. Mas vi que não tinha todas as peças para uma bomba-d’água, então procurei fazer um moinho que gerasse eletricidade. Quando me viam carregando os ferros, as pessoas achavam que eu estava louco. Me provocavam e diziam que eu estava fumando maconha. Mas não deixei que isso me incomodasse. Continuei. Meu primo, Geoffrey, e outro amigo, Gilbert, me ajudaram a construir. Ficou pronto em dois meses. Quando o vi funcionando, fiquei muito feliz. Finalmente as pessoas sabiam que eu não estava louco.
* Quanta energia gerava o moinho?
O gerador do moinho era um dínamo de bicicleta, produzia 12 volts. Era suficiente para acender uma lâmpada. Mais tarde, meu primo achou uma bateria de carro na estrada. Demos uma carga nela, e conseguimos energia para manter quatro lâmpadas e dois rádios. As pessoas faziam fila para carregar seus celulares. Os celulares estão em todo o lugar na África porque são baratos. Há poucos lugares onde a eletricidade chega - geralmente nos arredores das empresas estatais de tabaco - e algumas lojas cobram para as pessoas carregarem os celulares. Comigo era grátis.
* Depois que sua história se espalhou, você voltou a estudar. Como estão seus estudos?
Depois que eu fui à conferência do TED [organização sem fins lucrativos que promove conferências anuais para divulgar boas ideias] em Arusha, na Tanzânia, algumas pessoas se aproximaram e me ofereceram ajuda para voltar à escola. Primeiro frequentei um colégio cristão na capital. Agora estudo em Johannesburgo, na África do Sul, na African Leadership Academy, uma escola que pretende treinar a próxima geração de líderes do continente. Há 200 estudantes de 42 países diferentes da África.
* Agora que você viu que seu moinho não só ajudou sua família, mas gerou esperança em cima de energia elétrica e renovável, quais são seus próximos planos?
Depois de fazer faculdade, talvez nos EUA, quero voltar ao Malauí e descobrir maneiras de produzir energia barata e renovável nas vilas. Quero construir bombas-d’água de baixo custo e que possam ser operadas facilmente. E também colocar um moinho de vento em cada cidade do Malauí. Quando a companhia estatal de telefones se recusou a atender às vilas, as empresas particulares de telefonia celular chegaram com torres e agora todos têm celulares. Nós simplesmente passamos por cima dessas companhias ineficientes. Espero fazer o mesmo com a energia no Malauí. Em vez de esperar o governo levar eletricidade até as vilas por linhas de força, vamos construir moinhos de vento e gerá-la nós mesmos